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Bruno Faria Lopes brunolopes@sabado.cofina.pt 07 de Setembro de 2017 às 20:50

O PS não quer governar sozinho? Não é estranho: é sinal dos tempos

Será António Costa o primeiro líder político - "pelo menos onde exista vida terrestre", como escreveu há uma semana Ana Sá Lopes no Sol - a não querer uma maioria absoluta?

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No PS, nota a Ana, há quem não rejeite à partida essa teoria: para João Galamba, perder o apoio do PCP e do Bloco gera "medo que isso deixe o PS isolado, quer à sua esquerda, quer à sua direita". Galamba não estará sozinho dentro do PS nesta avaliação. O próprio António Costa já afirmou que mesmo que venha a ganhar essa maioria absoluta - algo no domínio do possível - quer renovar os acordos à esquerda. Então um partido de poder não quer mesmo uma maioria absoluta? Não sei. Mas talvez não seja preciso morder o isco da pergunta para identificar o ponto essencial nestes sinais: o que Costa não quer perder é a paz social que comprou à esquerda.

 

Porque quereria perder essa paz? Podemos imaginar o que teria sido dito e feito nos últimos meses pelo PCP e o Bloco perante a política orçamental, o plano para a Caixa Geral de Depósitos e o Novo Banco, a resposta pública aos incêndios e a Tancos, o engavetamento da reestruturação da dívida. A troco de cedências, Costa conseguiu meter no bolso a força sindical do PCP e a força mediática do Bloco. Com um Presidente da República, oriundo da direita, adepto da aplicação generosa de creme hidratante sobre a mais pequena fissura que ameace esta "paz social", o PS minoritário no Parlamento conseguiu o que não teria com uma maioria absoluta: governar com um grau invejável de sossego.

 

O preço visível deste sossego é a aceitação de medidas negociadas com a esquerda dura: o aumento do salário mínimo para 600 euros, a reversão das privatizações dos transportes (crucial para os sindicatos do PCP), etc. Neste ciclo político chama-se a isto "cumprir os acordos". Mas há outra forma, implícita, de cumprimento: a inacção do Governo. Inacção na Segurança Social, área em que a última reforma de fundo foi do PS. Inacção no trabalho, área em que o PS deixou as medidas de Mário Centeno. Inacção na política orçamental, área em que um exercício de revisão de despesa tem um objectivo risível de 50 milhões de euros. Inacção na escolha das áreas em que o Estado deve reforçar ou cortar.

 

Como lembrou Alexandre Homem Cristo esta semana no Observador, todas as reformas nos últimos anos - da Segurança Social à Educação, passando pelo Trabalho - foram feitas contra a oposição do PCP e do Bloco (na verdade, foram feitas também contra a oposição dos partidos do arco que estavam fora do poder). Várias vezes essa oposição foi contra ímpetos reformistas do PS. Quando António Costa afirma que mesmo com uma maioria absoluta em 2019 quer renovar os acordos, sugere que está disposto a prolongar o que vemos hoje: inacção em troca de sossego. Mostra que está, como escreve Luís Aguiar-Conraria no Observador, disposto a desistir de governar para poder governar.

 

Claro que este tipo de jogo depende especialmente das circunstâncias. Hoje são favoráveis. Mas se os dois anos que sobram até 2019 são muito tempo em política, os seis anos até ao fim da próxima legislatura são uma eternidade. A política monetária hiperexpansionista não se vai manter durante seis anos, a economia global não escapará a dificuldades, nem o euro a outro teste. Com essas mudanças morrerá esta "paz social" à boleia da conjuntura - nessa altura, a história do PS que não quer governar sozinho com maioria absoluta vai parecer coisa de um passado distante, no qual a inacção era um luxo com prazo de validade.

Jornalista da revista Sábado

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