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Bruno Faria Lopes brunolopes@sabado.cofina.pt 26 de Julho de 2016 às 00:01

O presidente informal que apresenta um plano formal 

O regulador europeu tem os seus defeitos, mas apresenta uma vantagem em benefício dos contribuintes: não tem "amigos" na pequena corte de Lisboa.

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1. O futuro presidente da Caixa Geral de Depósitos apresenta ao Banco Central Europeu os fundamentos do plano de reestruturação do banco público. António Domingues está a trabalhar nesse plano desde Fevereiro, noticia o Expresso, que acrescenta que Domingues contratou o apoio da consultora de topo McKinsey. Estas informações deveriam causar várias perplexidades.

 

2. Primeira: António Domingues só terminou formalmente a sua relação com o BPI, concorrente da Caixa, a 30 de Maio deste ano, conforme comunicado à CMVM, o regulador de mercado. Não se percebe como pode um futuro presidente da comissão executiva do banco público estar a trabalhar num plano de recapitalização enquanto formalmente ainda está ligado a um concorrente.

 

3. Segunda: o presidente nomeado, mas não oficialmente no banco, trata há meses da recapitalização quando ainda há uma administração em funções. O Expresso cita que o relatório em que o BCE manda para trás o plano como uma resposta à proposta do "informally nominated for CEO Mr. António Domingues". A bizarria da situação torna-se clara quando o mesmo jornal escreve que Domingues afirma desconhecer o relatório de resposta à sua proposta porque, formalmente, o BCE não tem de enviar-lhe o documento uma vez que ainda não é presidente.

 

4. Terceira: de acordo com a notícia, a proposta do presidente informalmente nomeado contou com o trabalho de uma consultora de topo, a McKinsey (que trabalhou com a administração de José de Matos). O BCE não terá gostado do trabalho, considerando que assenta num resumo de informação pública, sem informação da administração (a actual) sobre a actividade de crédito do banco - a ironia é grande.  

 

5. Quarta perplexidade: Lisboa deixa ir para Frankfurt um plano, feito pelo "presidente informal" e por uma consultora (recrutada a que título?) com um pedido de 5,1 mil milhões de euros de recapitalização. Os pedidos da actual administração ao Governo anterior - que agora se indigna com o atraso na gestão do dossiê da Caixa, mas que nessa altura fez ouvido de mercador - não apontavam nem para metade. Tamanha operação seria uma lavagem a fundo do banco com uma injecção de um accionista de bolsos fundos, que teria obviamente impacto na fragilizada concorrência privada - não admira que o BCP já tenha dado um sinal de alerta a Bruxelas sobre o uso irregular de ajudas de Estado. Alguém pensou nisso?

 

6. Tudo isto acontece enquanto uma comissão (que já mudou de objecto e de pessoas) de avaliação individual e conjunta da futura administração da Caixa (que tem enorme predomínio de pessoas do concorrente BPI) faz a sua avaliação. Com esta descrição de eventos não se quer pôr em causa a capacidade de António Domingues para o cargo - tem reputação de competência e de "cortar a direito" (desejável na relação com a tutela). O ponto é outro: o atraso da nossa cultura institucional. E ainda outro: a desorientação do Ministério das Finanças num dossiê-chave que herdou do anterior Governo. Todas as morosidades evitáveis custam tempo, e dinheiro, ao banco público.

 

7. Uma nota final: quem se queixa da "interferência externa" europeia em Portugal deve olhar para o processo da Caixa. O BCE duvida da capacidade de alguns não-executivos, duvida da razoabilidade do plano e obriga à sua revisão. O regulador europeu tem os seus defeitos, mas apresenta uma vantagem em benefício dos contribuintes: não tem "amigos" na pequena corte de Lisboa.

 

Jornalista da revista SÁBADO

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