Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 14 de setembro de 2017 às 20:10

Quatro lições por 400 milhões

A Caixa Geral de Depósitos encaixou 1.263 milhões com a privatização da Fidelidade em 2014? Sim - mas isso não conta a história toda.
Nas condições de venda à Fosun ia um casamento com más condições para a Caixa: 25 anos a vender em exclusivo os seguros da Fidelidade e a receber por ano comissões cerca de 40 milhões de euros abaixo da média praticada no mercado. Se usarmos uma taxa de juro de 10% para trazer estes valores para o ano da venda, 2014, chegamos a um impacto na receita futura superior a 400 milhões de euros, como noticia a Sábado esta semana. A revelação encerra várias lições úteis.

 

A primeira tem a ver com falta de transparência. As condições contratuais assumidas em operações de venda de um activo público, como a companhia de seguros Fidelidade, nunca vêem a luz do dia. Isto significa que um governante pode gabar um resultado de 1.263 milhões com a venda de um activo público sem que se perceba que o mesmo negócio prejudica a receita do vendedor, outro activo público, em 400 milhões. Esta falta de transparência - que noutros aspectos como a contratação de assessores foi alvo de crítica do Tribunal de Contas no caso da REN e da EDP - distorce a avaliação da venda de empresas públicas.

 

A segunda lição tem a ver com desespero. Quando o vendedor precisa de capital, quando tem um prazo fixo para vender e quando depende de um Estado sem acesso a financiamento, o resultado não pode ser bom. Este era o filme da Caixa naquela altura e foi a história de Portugal nos últimos anos. No caso da Fidelidade, a Caixa e o então governo optaram por maximizar o encaixe no presente em detrimento dos resultados futuros do banco. Quem argumenta que a Fidelidade privatizada paga as mesmas comissões que pagava quando era da Caixa deixa de fora que antes tudo era consolidado no universo público - e que, em 2014, essa renda foi transferida, intocada, para um privado.

 

A terceira lição tem a ver com as portas giratórias num meio de elite muito pequeno. Causa desconforto ver o administrador que na Caixa acompanhou mais de perto a venda ganha pela Fosun - e que foi um representante do banco público na Fidelidade enquanto a Fosun usou a seguradora para se financiar - a aparecer na administração do BCP a convite da mesma Fosun. A ida de João Nuno Palma para o BCP por si só não prova coisa alguma sobre a conduta do gestor na Caixa. Mas é uma de várias transumâncias que levantam dúvidas e que são sintoma de um meio excessivamente pequeno e dado a conflitos de interesses.

 

A quarta lição é sobre risco - e não é bem uma lição. A administração de Paulo Macedo, a braços com um plano de negócios muito exigente, está a fazer o que lhe compete: para puxar pela receita das comissões com os seguros fez novas campanhas em parceria com a Fidelidade, com comissões mais altas. Mas é bom lembrar a acumulação de exposição da Caixa (10 mil milhões de euros) a produtos financeiros de uma entidade cuja gestão não controla e que são vendidos nos seus balcões. O leitor dirá que nos outros bancos há exposição a outras seguradoras. Mas, neste caso, quem controla quase 30% do mercado segurador português é um conglomerado chinês com muita dívida e "rating" fraco, que comprou a Fidelidade com o pêlo do cão e que vem de uma cultura empresarial e política opaca. Não é sinónimo de qualquer sentença sobre a Fidelidade, mas espera-se que mereça atenção especial quer do banco público (que ainda tem 15% da seguradora), quer dos reguladores - incluindo o regulador dos seguros, aquele cujo presidente tirou uns dias de férias em 2015 para ir a Xangai, por sua conta, a um evento da Fosun.

 

Jornalista da revista Sábado

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