Camilo Lourenço
Camilo Lourenço 13 de março de 2019 às 22:25

O texto que devia ter sido escrito em 2011

O Governo tem de assumir as escolhas que fez. Não pode fazer escolhas erradas e vir, mais tarde, vilipendiar os enfermeiros como se estes não tivessem razão nas suas reivindicações.

A FRASE...

 
"É um facto cristalino que os recursos orçamentais do país são limitados e que as lutas sindicais não podem ter como objetivo conquistar atualizações de carreira e aumentos salariais que não correspondam às disponibilidades financeiras do Estado."

 

São José Almeida, Público, 2 de Março de 2019

A ANÁLISE...

 

Quando me fizeram chegar esta prosa, pensei que se referia ao período da troika, quando Portugal foi obrigado a fazer um duríssimo ajustamento. Mas foi escrito há menos de um mês. A autora, São José Almeida, do jornal Público, defende a dureza que o atual Governo tem mostrado ao negociar com enfermeiros e professores. E diz mesmo que essa dureza vai render votos a António Costa. Esta última parte vou deixar de lado porque já foi bem analisada por João Miguel Tavares, no mesmo jornal.

 

Adiante: qual o racional do artigo? O Governo não tem dinheiro para satisfazer reivindicações daquelas (e outras) classes. Pergunta: Qual Governo? O atual ou… o da troika? É que o atual tem. Não tem o dinheiro de que precisa para cumprir todas as promessas que fez, mas tem muito mais dinheiro do que o Governo do "ajustamento". Aliás, é bom lembrar que o ajustamento surgiu porque Portugal ficou sem crédito.

 

A moeda é, na essência, um recurso escasso. Que, por isso, implica fazer escolhas. Por exemplo, para dar aumentos a todos os funcionários públicos, o Governo ficou sem dinheiro para corrigir as injustiças dos enfermeiros… e de outras classes. Mas o Governo tem de assumir as escolhas que fez. Não pode fazer escolhas erradas e vir, mais tarde, vilipendiar os enfermeiros como se estes não tivessem razão nas suas reivindicações. 

 

Mas o que choca ainda mais no texto é ver uma jornalista que criticou duramente os cortes impostos pela troika (nomeadamente no SNS), defender agora um Governo que mantém (e até agrava) os cortes no Serviço Nacional de Saúde (fora a Educação…). Com expressões do género: "A forma absurdamente egoísta e intransigente como professores e enfermeiros conduziram as suas lutas esbarra com o quotidiano do país."

 

São José Almeida tem um pensamento (de esquerda) estruturado e é uma jornalista/analista respeitada. Mas escolheu mal o momento para falar em falta de "disponibilidades financeiras". Isso sucedeu sim, mas em 2011. Não agora.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

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