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Carlos Almeida Andrade - Economista 08 de Dezembro de 2011 às 23:30

2012

De acordo com algumas crenças populares, 2012 é visto como um ano de catástrofes (incluindo até o "fim do mundo"...) ou, pelo contrário, como um ano de entrada numa "nova era" e de grandes transformações espirituais...

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Daqui a um ano, estas crenças estarão muito provavelmente esquecidas, e deveremos olhar para 2012 como um ano extremamente difícil, é certo, mas que terá sido ultrapassado, mal ou bem, como no passado muitas outras dificuldades foram suportadas ou mesmo vencidas por outras gerações (incluindo guerras e dificuldades económicas profundas).

Do ponto de vista económico, o "Outlook" global para 2012 encontra-se marcado por uma expectativa de crescimento relativamente baixo, ou mesmo recessão em algumas regiões, como a Zona Euro. O desemprego deverá manter-se elevado na Europa e nos Estados Unidos, e a inflação deverá seguir uma tendência de descida.

Neste contexto, espera-se a adopção de políticas monetárias mais expansionistas na generalidade das economias, incluindo nas principais áreas emergentes. O principal foco continuará a incidir, naturalmente, sobre a Zona Euro. Já não deverá ser possível evitar uma recessão entre o final de 2011 e a primeira metade de 2012.

Mas, mais importante do que isso, é o facto de esta economia se encontrar numa encruzilhada. Os mercados financeiros têm vindo a penalizar fortemente as economias da Zona Euro, explorando a fragilidade desta enquanto união monetária.

O crescente contágio da "crise da dívida" da periferia para o centro tem vindo a traduzir-se numa deterioração cada vez mais visível das condições de financiamento dos Governos, empresas e famílias, bem como numa generalização de políticas orçamentais restritivas (em alguns casos, com uma natureza bastante agressiva). Não será possível prolongar a actual situação por muito mais tempo, sem arriscar um "evento tipo Lehman", mas com uma escala e consequências bem maiores do que as observadas aquando da queda do banco de investimentos norte-americano.

Daí a enorme importância da cimeira dos líderes europeus que tem hoje lugar em Bruxelas. Por muito difícil que pareça, os responsáveis políticos da Zona Euro serão eventualmente forçados (mesmo que não seja já hoje) a tomar medidas decisivas no sentido de uma maior integração e coordenação orçamentais, esperando-se ainda que o BCE adopte um papel mais activo e agressivo na estabilização financeira da economia, com o recurso a medidas menos convencionais. Este cenário já não impedirá uma recessão na Zona Euro, mas poderia levar a uma recuperação da confiança e da actividade económica (ainda que em níveis muito moderados) na segunda metade de 2012.

A conjuntura em 2012 será muito condicionada por desenvolvimentos políticos incertos (o contexto e as decisões políticas têm, aliás, marcado decisivamente a economia nos últimos tempos). Na Zona Euro, destacam-se as eleições legislativas na Grécia (previstas para Fevereiro) e as eleições presidenciais em França (1.ª volta no final de Abril, 2.ª volta no início de Maio), merecendo também atenção o ambiente político em Itália no que respeita ao suporte parlamentar ao novo governo.

Será ainda importante acompanhar o risco de tensões sociais em resposta à deterioração da actividade económica e às políticas de austeridade. No contexto político, a necessidade de decisões adequadas à resolução da crise da dívida da Zona Euro terá uma importância histórica sem paralelo nas últimas décadas. O principal risco negativo para 2012 prende-se, precisamente, com um cenário de tomada de decisões erradas.

A conjuntura política será também relevante nos Estados Unidos, com as eleições presidenciais e para o Congresso, em Novembro. Parece evidente que o impasse em torno de decisões orçamentais importantes apenas será desbloqueado após a clarificação política saída das eleições. Um quadro mais transparente no que respeita à orientação da política orçamental e ao crescimento económico dos Estados Unidos encontra-se dependente dos desenvolvimentos políticos ao longo do próximo ano. Por último, será importante não perder de vista o risco de um agravamento das tensões geopolíticas no Médio Oriente, em particular envolvendo a questão nuclear com o Irão, que tem tido pouca visibilidade, mas com impactos negativos potenciais bastante relevantes.

No que respeita à actividade económica, e no cenário de uma evolução benigna da crise da Zona Euro, o crescimento anual desta economia deverá ser, ainda assim, apenas marginalmente positivo, incluindo variações trimestrais negativas do PIB entre o final de 2011 e o início de 2012. Os impactos da crise da dívida sobre o sector financeiro da Zona Euro - no que respeita, por exemplo, à deterioração da confiança e à secagem de liquidez - encontram-se já ao nível dos observados em 2008-09, após a queda do Lehman Brothers.

A consequente penalização do financiamento do investimento e do consumo determinam, em conjunto com a austeridade orçamental generalizada, a expectativa de arrefecimento ou, cada vez com maior probabilidade, de contracção da actividade.

Nos Estados Unidos, a economia parece ter evitado uma nova recessão. Mas o crescimento deverá manter-se relativamente baixo, em torno de 2% a 2,5%, restringido pelos níveis elevados de desemprego e de endividamento das famílias, pelo ajustamento em curso na habitação, pela incerteza política e pelos riscos de uma política orçamental restritiva.

As principais economias emergentes não serão imunes à crise da Zona Euro e ao arrefecimento da actividade global. China, Índia e Brasil deverão desacelerar em 2012, com a primeira a crescer abaixo de 9%. Mas algum alívio nas pressões inflacionistas deverá permitir um relaxamento da política monetária (já em curso na China e no Brasil), mitigando os riscos de uma descida mais abrupta do crescimento. Uma procura interna forte, níveis de endividamento baixos e a estabilidade macroeconómica conferida por reservas externas amplas tenderão a proteger as economias emergentes.

Os riscos para todo este cenário central encontram-se enviesados no sentido negativo, em função da incerteza em torno da crise da Zona Euro (um eventual cenário extremo - que não deve ser visto como mais provável - teria efeitos difíceis, ou impossíveis, de quantificar aqui). Em todo o caso, de uma maneira ou de outra, devemos esperar que, tal como gerações anteriores ultrapassaram dificuldades extremas ao longo da História, também a geração actual irá ultrapassar os enormes desafios com que se defronta. Aos leitores do Negócios, os desejos de um Santo Natal.


Economista-chefe do BES e docente universitário
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