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Carlos Almeida Andrade - Economista 30 de Julho de 2008 às 14:00

Em busca do crescimento perdido

As mais recentes previsões do Banco de Portugal e do FMI para a economia portuguesa vieram suportar as expectativas de baixo crescimento da actividade em 2008 e 2009 (com um registo médio anual para este período em torno de apenas 1,2%). Há um ano atrás, um consenso relativamente alargado suportava a ideia de crescimentos já ligeiramente acima de 2% nestes dois anos.

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O que aconteceu, então? Em grande medida, a revisão em baixa resulta de uma deterioração da conjuntura externa, em particular da coincidência de uma crise profunda dos mercados financeiros internacionais com uma forte subida dos preços das matérias-primas. Mas é também verdade que, pelas previsões de há um ano atrás, sem esta crise conjuntural o crescimento se encontraria apenas em torno de 2%, um valor relativamente baixo (inferior, por exemplo, ao que foi o nosso crescimento potencial no passado, bem como ao que pode ser observado actualmente em algumas economias da Europa de Leste, também sujeitas a uma conjuntura externa adversa). Significa isto que existem também razões estruturais por trás do baixo crescimento da economia portuguesa. Em particular, Portugal parece ainda não se ter adaptado bem à nova fase da globalização, sobretudo marcada pela emergência das "economias emergentes" e pela sua integração nos fluxos comerciais e financeiros internacionais. Neste processo, a economia portuguesa perdeu vantagens – como alguma competitividade ao nível do preço da mão-de-obra – e viu expostas algumas limitações, por exemplo, ao nível da baixa qualificação dessa mão-de-obra e do baixo valor acrescentado da actividade produtiva.

As vantagens que as economias emergentes apresentam – na Ásia, na Europa de Leste, na América Latina e mesmo em África – tornam-nas cada vez mais atractivas aos olhos dos investidores. São economias com capacidade de oferecer um conjunto alargado de bens e serviços com custos de produção mais reduzidos; em alguns casos, são economias com um acesso próximo a matérias-primas; e são, na sua generalidade, economias com perspectivas extremamente favoráveis ao nível da evolução do rendimento per capita, do poder de compra e, consequentemente, da procura (quer do consumo, quer do investimento). Neste sentido, temos assistido, e deveremos continuar a assistir ao longo da próxima década, a uma forte acumulação de capital nestas economias (ou, visto de outra forma, a uma canalização crescente da poupança global na sua direcção, implicando uma oferta relativamente menor da poupança nas chamadas economias desenvolvidas e, logo, coeteris paribus, taxas de juro tendencialmente mais elevadas nestas últimas). Este catching-up das economias emergentes tem vindo ainda a traduzir-se numa pressão sobre a procura de matérias-primas, desde a energia, aos alimentos, passando pelos metais. Os seus efeitos são amplamente conhecidos e vêm marcando o nosso dia-a-dia ao longo dos últimos anos: preços mais elevados de inúmeros bens e serviços essenciais, restringindo o nosso poder de compra.

Todo este processo sugere duas ideias. Por um lado, o crescimento económico global parece ter-se tornado num jogo de soma nula onde, para uns ganharem, outros poderão ter que perder. Por outro lado, está em curso uma transferência estrutural de rendimento das economias desenvolvidas para as economias emergentes.

Tal como no passado, o progresso tecnológico (nas energias renováveis e na biotecnologia, por exemplo) deverá encarregar-se de fazer do crescimento global, de novo, um jogo de soma positiva. Mas, até lá, é importante que se perceba que os tempos não serão mais fáceis (em Portugal e na Europa). O caminho a seguir para a economia portuguesa passa por uma adaptação a esta nova realidade. Quatro ideias simples: associar-se tanto quanto possível ao catching-up das economias emergentes ao nível das infra-estruturas, comunicações, serviços, etc., o que implica um esforço de internacionalização das nossas empresas; melhorar as condições concorrenciais e a flexibilidade nos diversos mercados e sectores da economia, incentivando assim ganhos de produtividade; investir fortemente na melhoria da educação e das qualificações dos portugueses, não gastando mais dinheiro, mas introduzindo os incentivos correctos no sistema e aumentando o grau de exigência no ensino (algo que estamos cada vez mais longe de fazer, infelizmente); e investir internamente na produção de bens e serviços associados a uma vantagem específica e única de Portugal e que, por isso, possam ser valorizados pelo exterior (não estando sujeitos a ser replicados externamente a custos mais baixos). A este respeito, o turismo deve ser visto como um sector estratégico, a partir da valorização do nosso património paisagístico, arquitectónico e cultural, habitualmente tão desprezado. A globalização em curso pode ser positiva para a economia portuguesa, desde que esta encontre o caminho certo. Mas será sempre um caminho difícil e demorado.

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