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Carlos Almeida Andrade 28 de Janeiro de 2016 às 21:20

Mercados vs. economia

As autoridades procuram desincentivar o crédito e o investimento e procuram incentivar uma redução do endividamento, um maior contributo do consumo privado para o crescimento da economia.

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O início do ano tem sido marcado por um forte sentimento de incerteza e por uma enorme volatilidade nos mercados financeiros. À partida, dois factores têm merecido mais atenção na procura de uma explicação para esta conjuntura: em primeiro lugar, os receios em torno da desaceleração da economia da China e dos efeitos desestabilizadores da desvalorização do renminbi; e, em segundo lugar, os receios em torno da forte queda dos preços do petróleo. No seu conjunto, estes factores geram uma pressão desinflacionista na economia mundial, fragilizando ainda as perspectivas para vários mercados emergentes, sobretudo os produtores e exportadores de matérias-primas (menos procura e preços mais baixos traduzem-se em menos produção, menos exportações e menos receitas). 


Um terceiro factor, talvez menos falado, mas seguramente com impacto no sentimento dos investidores e no comportamento recente dos mercados, prende-se com a falta de convicções fortes sobre a evolução futura da actividade económica nas economias desenvolvidas, em particular nos EUA. Para alguns, a economia americana encontra-se a caminho de uma recessão, empurrada pela forte queda do mercado accionista (com um efeito-riqueza negativo sobre as famílias) e pela contracção da actividade industrial (neste caso, sobretudo associada à queda do investimento nos sectores extractivos, bem como aos efeitos penalizadores de um dólar forte).

Os três factores aqui referidos retiram muita visibilidade aos investidores que, assim, preferem adoptar posições muito defensivas, avessas ao risco, que ajudam a explicar as quedas no mercado accionista e a maior procura por activos vistos como mais seguros.

 

Até que ponto são estes receios suportados pelos fundamentos económicos? Um dos maiores riscos para a economia mundial ao longo deste próximo ano prende-se, talvez, com a possibilidade de um ou mais sustos nos mercados financeiros (por exemplo, espoletados por eventuais "defaults" no sector energético ou nalguma economia emergente mais vulnerável) acabarem por contaminar a confiança e as decisões de despesa das famílias e empresas na economia real. É, seguramente, um risco a ter em conta. Mas, à partida, o pessimismo actual nos mercados financeiros não reflecte o desempenho moderadamente favorável das principais áreas económicas.

Um exemplo do extremo a que chega a actual psicologia negativa do mercado encontra-se no recente anúncio do fim das sanções económicas ao Irão, que permitirá a este país aumentar a sua produção e exportação de petróleo. Em qualquer outra altura, esta deveria ser uma notícia positiva, por todos os motivos. Mas o mercado recebeu-a negativamente: um aumento da oferta no mercado de crude pressiona o seu preço em baixa e acentua os riscos atrás referidos (de desinflação, de vulnerabilidade dos emergentes, de "defaults" dos produtores de energia, etc.).

 

O que dizer, então, dos três grandes factores de preocupação? Em primeiro lugar, a desaceleração da economia chinesa deve ser vista como necessária e positiva a médio prazo. Ela reflecte uma inevitável alteração do padrão de crescimento que marcou os últimos anos. As autoridades procuram desincentivar o crédito e o investimento e procuram incentivar uma redução do endividamento, um maior contributo do consumo privado para o crescimento da economia e, sobretudo, uma redução do excesso de capacidade instalada em alguns sectores, incluindo o imobiliário. Devemos esperar que a economia chinesa caminhe gradualmente para crescimentos mais próximos de 5% a médio prazo, mas isso deve ser visto como algo desejável. Manter crescimentos de 10-12% com bases pouco sólidas seria, isso sim, perigoso. Desde que as autoridades chinesas consigam conduzir este processo de uma forma gradual (evitando, pelo caminho, variações bruscas do renminbi), os impactos na economia mundial deverão ser geríveis.

Quanto ao preço do petróleo, a sua forte descida cria, de facto, dificuldades e riscos para os produtores. Mas, admitindo uma estabilização e recuperação deste preço a partir da segunda metade do ano, à medida que a oferta e a procura se reequilibram (por exemplo, com a saída de alguns produtores do mercado), então o foco deverá incidir sobre os impactos positivos de uma energia mais barata (redução dos custos de produção para as empresas, aumento do rendimento real e do poder de compra das famílias, etc.). Em conjunto com a manutenção de juros baixos e com um maior suporte da política orçamental, os baixos preços do petróleo deverão sustentar o crescimento em economias como os EUA e a Europa.

Nos EUA, os mercados de trabalho e da habitação continuam a recuperar, devendo isso sobrepor-se aos efeitos negativos da queda do mercado accionista. Não se pode, também, esquecer o sector dos serviços, menos mediático, mas com maior peso nestas economias e com um desempenho recente favorável. E, "last but not least", os principais bancos centrais não estão, de todo, forçados a subir juros, podendo manter - ou intensificar - o seu apoio à economia.

Em suma, é verdade que não se esperam crescimentos elevados nos EUA e na Europa. Estes deverão manter-se restringidos por factores estruturais, como os elevados níveis de dívida e uma demografia adversa (envelhecimento da população, moderando o consumo e pressionando as finanças públicas; e redução da população activa, pressionando o crescimento potencial). Mas, não se deixando de reconhecer os riscos, o cenário de recessão sugerido pelo pessimismo actual dos mercados financeiros parece ser exagerado.

 

Economista

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