Carlos Bastardo
Carlos Bastardo 13 de março de 2013 às 00:01

4, 6, 9, 17 e 40 – Não é para o Euromilhões, antes fosse!

Os números acima até poderiam ser uma chave de sucesso de um jogo como o Totoloto ou o Euromilhões, mas infelizmente são alguns dados estatísticos que caracterizaram severamente a economia portuguesa em 2012.

A produção industrial portuguesa caiu 4% em Dezembro em termos anuais homólogos (mais do que a queda da Zona Euro de 2,4%).


6%, ou melhor 6,29% é o valor médio do crédito mal parado do sector bancário, quando um ano antes era de 4,56%.

9%, foi quanto caiu o consumo de combustíveis em Portugal no ano passado.

17%, ou melhor 16,9% foi a taxa de desemprego em Dezembro de 2012, bastante acima do projectado um ano antes.

Finalmente o número 40% é o valor da taxa de desemprego dos jovens, sem dúvida um dos indicadores mais preocupantes.

Poderia ir buscar outros números mas estes já são bem ilustrativos do caminho que a economia portuguesa tem seguido, consequência de um processo de ajustamento mais doloroso e rápido do que o desejável.

O enquadramento económico internacional não tem sido fácil (mas não é de agora), pelo que, teria sido mais racional tomar decisões mais equilibradas. É necessário não esquecer que a economia portuguesa encerra em si alguma vulnerabilidade estrutural. Nos anos antes da crise actual, enquanto o PIB da Zona Euro cresceu emtre 2,5% e 3%, a economia portuguesa apresentou crescimentos abaixo de 2%.

Esta semana, as estatísticas oficiais finalmente aproximaram-se da realidade: uma queda de 2% do PIB e um desemprego de 17,3% em 2013, ficam mais perto das estimativas da generalidade das entidades privadas nacionais e internacionais.

Soubemos também que a dívida pública face ao PIB já estava em 122,5% do PIB no final de 2012. Deste modo, são cada vez mais as vozes que dizem o que alguns já referem há muitos meses (onde me incluo): vai ser extremamente difícil trazer o rácio de dívida pública face ao PIB para um patamar que possa ser gerido.

Por isso, a renegociação das condições da ajuda da Troika é crucial. O país tem alguns trunfos que deve usar neste momento: o ajustamento tem sido feito de acordo com o exigido (em algumas áreas até mais além) e pela primeira vez desde 1996, a balança corrente e de capital foi positiva em 0,5% do PIB de acordo com os dados revelados pelo Banco de Portugal.

Para o FMI a ausência de défice externo é o mais importante. Para a Comissão Europeia um défice público abaixo dos 3% do PIB é o objectivo principal. Alinho pela posição do FMI. O facto de em 2012, o saldo da balança corrente e de capital ter sio positivo, quando as estimativas apontavam para um défice de 1,1%, é o grande trunfo que tem de ser jogado ou posto em cima da mesa, com vista a uma negociação séria das condições de ajuda.

Por outro lado, o valor positivo deste indicador macroeconómico é muito importante para pedir alguma flexibilização no cumprimento do outro défice "gémeo", o défice público. Será mais fácil chegar aos 3% do PIB se houver crescimento económico.

Se um país incumpridor viu as condições de ajuda melhorarem, Portugal como país relativamente cumpridor, deve beneficiar também desses incentivos.

O que é necessário é "perseguir" esses incentivos. Há que materializar a gestão das expectativas com vista a ganhos de confiança. Neste momento, angariar confiança é fundamental para que o país possa dar o salto em frente. A comunicação lá fora e especialmente cá dentro, tem que melhorar. Os portugueses têm que finalmente ver os progressos resultantes dos seus sacrifícios.

Economista. Autor do livro Gestão de Activos Financeiros – Back to Basis

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