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Carlos Bastardo 25 de Maio de 2020 às 19:25

Banca antes e após covid-19

As alterações previstas nos próximos anos na oferta de produtos financeiros vão exigir uma regulação efetiva com conta, peso e medida, e deverão existir metodologias rigorosas de análise de risco, além de níveis de segurança de utilização adequados para os clientes.

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A banca é um dos principais setores de atividade em qualquer economia. É a banca que financia a economia e se a banca estiver mal como esteve no período a partir de 2008, a economia é arrastada tal como aconteceu nessa altura.

A gestão de um banco é muito complexa. Trabalhei mais de 25 anos na banca nas áreas de auditoria e mais tarde de investimento (gestão de ativos financeiros em fundos de investimento, gestão de carteiras e private banking). Mesmo assim, nesta última área, vivi várias crises com um impacto fortemente negativo no valor dos ativos (ações, obrigações, produtos derivados, commodities, imobiliário…).

Um banco enfrenta diferentes categorias de risco: soberano ou do país (por exemplo o que aconteceu com a falência e resgate de Portugal em 2011), capital e solvência (insuficiência), crédito (aumento do malparado), taxa de juro, funding (grandes dificuldades de captação de fundos em 2010 e 2011 até ao resgate), cambial, mercado (os bancos têm em carteira investimentos em ativos financeiros), regulatório, operacional, ativos não reportados no balanço, reputação e de contraparte.

Pela lista apresentada, compreende-se que a gestão de um banco é uma atividade complexa e que, por isso, deve coexistir com regras e mecanismos de controlo quanto baste, para não voltar a acontecer os episódios de 2008 e anos seguintes.

A crise pandémica e económica que estamos a viver é um desafio para todos os setores de atividade económica. No caso do setor bancário, os bancos são muito importantes no financiamento das empresas nesta altura de confinamento e de paragem parcial e/ou total da sua atividade.

As linhas de crédito para apoiar diferentes setores, as moratórias para as empresas e para os particulares (crédito à habitação), são medidas fundamentais. Para isso, os bancos têm hoje uma situação de capital e de liquidez muito melhor que em 2008.

O apoio do Banco Central Europeu através do programa de compra de títulos e das linhas de financiamento tem sido fundamental na recuperação da banca europeia desde 2012.

Os bancos nacionais desalavancaram muito nos últimos anos. Hoje o rácio de transformação crédito/depósitos está equilibrado e não em níveis de 140% e 150% como em 2007/8.

Por outro lado, o nível de eficiência operacional medido pelo rácio “cost to income” é bastante melhor do que em 2008.

Portanto, a banca está hoje com condições para ajudar a aguentar um barco que enfrenta águas turbulentas.

Nos últimos anos, a banca tem desenvolvido investimentos tecnológicos de forma a obter uma melhor operacionalidade e com menores custos. A covid-19 fez com que esse investimento esteja a acelerar em diferentes áreas: teletrabalho, maior aposta na banca eletrónica e melhoria dos sistemas de segurança.

É muito provável que as empresas financeiras denominadas “fintech” possam ter aqui uma oportunidade de crescimento, ou que os bancos desenvolvam novos projetos ou comprem algumas destas empresas.

As alterações previstas nos próximos anos na oferta de produtos financeiros vão exigir uma regulação efetiva com conta, peso e medida, e deverão existir metodologias rigorosas de análise de risco, além de níveis de segurança de utilização adequados para os clientes.

Só assim será possível manter a confiança recuperada nos anos que se seguiram à crise financeira.

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