Carlos Bastardo
Carlos Bastardo 09 de outubro de 2016 às 19:00

Coitada da poupança!

Num país habituado a gastar mais do que produz, a palavra poupança perdeu terreno ao longo dos anos para o crédito. Os resultados estão à vista!

A poupança é maltratada neste país. Depois do IRS retido na fonte que o comum do trabalhador paga, quando recebe o salário líquido; depois do IVA que paga nas compras de produtos e serviços no seu quotidiano, nomeadamente na alimentação, vestuário, saúde, educação e lazer; depois de pagar IMT quando adquire uma casa; depois de pagar os juros e as comissões aos bancos e de pagar ao Estado o imposto de selo que incide sobre esses valores; depois do IMI cobrado pelo Estado com mais ou menos sol; depois disto tudo, se conseguir poupar algum dinheiro e fizer aplicações em depósitos, em obrigações, em ações, em imobiliário, ainda paga cada vez mais impostos sobre o rendimento que obtém.

 

Relembro que há uns anos, por exemplo, o IRS sobre os juros dos depósitos a prazo era de 20% e hoje é de 28%. Não deixa de ser curioso que os juros de uma poupança deste tipo pagam mais IRS do que os prémios semanais da sorte (20%).

 

Ou seja, a poupança não escapa a um ser omnipresente que a tributa sempre que pode. E para aqueles que dizem que tributar a riqueza não é tributar a poupança, eu pergunto: em condições normais, a riqueza de um indivíduo que vive do seu trabalho não depende do seu rendimento e do seu nível de poupança? E o rendimento antes de ser poupança já não é tributado?

 

Hoje em dia, a poupança sofre outro problema: as taxas de juro extremamente baixas, o que na prática funciona como mais um imposto. Por exemplo, um grupo de portugueses cada vez mais numeroso, os reformados, recebia no passado recente juros das suas aplicações sem risco, que funcionavam como um suplemento da sua reforma. Hoje, perderam essa almofada.

 

Se o crédito (sem exageros) é vital para a economia, a poupança também o é, especialmente numa perspetiva de médio/longo prazo. E num dos países mais endividados do mundo como é Portugal, onde o endividamento do Estado, das empresas e das famílias representa mais de 400% do PIB, poupar é fundamental.

 

Logicamente que o Estado necessita de receitas fiscais na dose certa para financiar a sua atividade e todos devemos pagar impostos em função dos rendimentos. Só essa situação permitirá a redução de impostos. Se há pessoas que têm património que "a priori" não é compatível com as declarações de rendimentos que apresentam, só há uma solução: consolide-se a informação do IRS com a que consta nas conservatórias do registo comercial, do registo predial e do registo automóvel e faça-se a análise.

 

Não devemos é prejudicar cegamente a poupança, pois este país necessita de poupar a todos os níveis!

 

Economista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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