Carlos Bastardo
Carlos Bastardo 28 de agosto de 2019 às 19:44

Efeitos de uma recessão técnica da maior economia europeia

O impacto que uma recessão alemã possa ter nas nossas exportações é certo e será menor ou maior, consoante o enquadramento económico global e a possibilidade ou facilidade dos exportadores portugueses na diversificação de mercados destino.

A guerra comercial EUA/China está a ter como principal consequência a perda de confiança dos agentes económicos a nível mundial.

 

Os países exportadores como a Alemanha foram as primeiras vítimas. Mas outras economias desenvolvidas também têm sido afetadas e tal tem alastrado rapidamente às economias emergentes, neste mundo globalizado. A globalização acaba por ter um efeito de castelo de cartas, quando as coisas começam a correr mal.

 

A Alemanha é o motor da Zona Euro e a maior economia europeia. Está habituada nos últimos anos a um crescimento médio do PIB de 0,5% ao trimestre. Tal foi possível graças a um grande plano de estímulos económicos e empresariais iniciado há 11 anos.

 

Os seus problemas atuais são complicados de resolver, como por exemplo a necessidade de modernização das suas infraestruturas, a gestão do impacto das mudanças energéticas em algumas indústrias como a automóvel e a digitalização.

 

Logicamente, a Alemanha tem um excedente comercial significativo e um excedente das contas públicas de 1,7% do PIB, o que lhe dá uma grande margem de manobra, mesmo que continue a respeitar o objetivo do défice público zero. É muito provável que o Governo alemão anuncie medidas importantes nos próximos meses.

 

A Alemanha é importante para Portugal, pois é o nosso segundo maior comprador de produtos. Se a Alemanha entrar em recessão, embora nesta altura a previsão é que esta seja ligeira, o nosso país será mais ou menos afetado consoante a sua durabilidade e amplitude.

 

Se a guerra comercial persistir e agudizar-se e, nesta altura, necessitamos de factos concretos oriundos das negociações EUA/China e não de mensagens contraditórias nas redes sociais todas as semanas, a Alemanha continuará a ser uma das economias desenvolvidas mais afetadas.

 

Por outro lado, se os receios de recessão económica persistirem ou aumentarem será um grande problema, uma vez que as munições dos bancos centrais são reduzidas. 

 

Nas duas últimas crises, a Reserva Federal americana baixou as taxas de juro de 6,5% para 2% e de 4,75% para quase 0%. Ou seja, o ciclo de descida das taxas de juro foi de 4 a 4,5%. Agora, é impossível concretizar essa redução, dado o nível atual das taxas de juro.

 

Na Europa, o nível das taxas de juro é o que todos nós sabemos. Muita dívida pública e de empresas apresenta "yields" negativas, o que é péssimo para a poupança e para o investimento e incentiva o endividamento que já é elevado.

 

A economia portuguesa apresenta uma estrutura produtiva que sempre revelou dificuldades num cenário de globalização. Além disso, continuamos com um rácio de dívida pública face ao PIB elevado, acima dos 120% e não acima dos 100% como recentemente um jornal internacional referiu.

 

Com o resgate do país em 2011 e com o consequente programa da troika, os empresários portugueses não tiveram outra alternativa que substituir menores vendas no mercado doméstico por mais vendas no mercado internacional e simultaneamente diversificar mercados.

 

O impacto que uma recessão alemã possa ter nas nossas exportações é certo e será menor ou maior, consoante o enquadramento económico global e a possibilidade ou facilidade dos exportadores portugueses na diversificação de mercados destino. 

 

Economista

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