Carlos Bastardo
Carlos Bastardo 12 de julho de 2019 às 09:30

Endividamento da economia em máximos históricos

Só no mês de abril o endividamento aumentou 2,6 mil milhões de euros (2,8 mil milhões de euros de aumento de endividamento do setor público e redução de 200 milhões de euros de endividamento do setor privado) face a março.

Quem ouve muitos responsáveis políticos portugueses, parece que o país está a viver uma situação de grande dinâmica económica e financeira. Mas será que é mesmo assim?

Uma economia quando está num ciclo positivo e simultaneamente beneficiando de um quadro de taxas de juro muito baixas, a sua capacidade de geração de riqueza deveria ser pelos menos de 3% ao ano em termos reais. As previsões de crescimento do PIB português em 2019 variam entre 1,5% e 1,8%.

 

Uma economia, quando está dinâmica, consegue gerar a riqueza suficiente para reduzir rapidamente a dívida. O endividamento do setor não financeiro português atingiu em abril de 2019 os 727.000.000.000 euros (727 mil milhões de euros), novo máximo histórico. Deste valor, 326,1 mil milhões de euros respeitavam ao setor público e 400,9 mil milhões de euros ao setor privado.

 

Só no mês de abril o endividamento aumentou 2,6 mil milhões de euros (2,8 mil milhões de euros de aumento de endividamento do setor público e redução de 200 milhões de euros de endividamento do setor privado) face a março.

 

Em finais de 2015, o endividamento do setor não financeiro já era elevado, mas situava-se cerca de 22 mil milhões de euros abaixo do valor em abril de 2019. Nos anos de 2016 e especialmente 2017 e 2018, a economia conseguiu crescer acima dos 2%, mas tal não impediu que o endividamento aumentasse.

 

Face a estes números, será que podemos dizer que a economia está bastante melhor, quando não consegue gerar a riqueza suficiente para baixar o endividamento? Não. Alguma coisa falhou.

 

A dívida pública continua a subir em termos nominais (252,4 mil milhões de euros em abril) e tem-se reduzido face ao PIB menos que o desejável.

 

A dívida das empresas privadas está a descer há muitos meses e o valor em abril (259,2 mil milhões de euros) representou 158,5% do PIB, o valor mais baixo desde 2007.

 

O endividamento das famílias estava em abril nos 141,7 mil milhões de euros, o valor face ao PIB mais baixo de sempre (69,8%).

 

Portanto, temos o setor privado a reduzir o endividamento em termos nominais e o setor público a aumentar.

 

Nas 3 vezes que o país teve ajuda financeira internacional desde o 25 de Abril de 1974, nos períodos imediatamente anteriores aos resgates, a economia portuguesa estava sobre endividada e o endividamento externo era elevado.

 

E a questão fundamental é que, contrariamente ao Japão, em que 90% da dívida está em mãos de japoneses, no caso de Portugal, grande parte da dívida está em mãos de investidores estrangeiros. Hoje, a dívida pública portuguesa é muito procurada, mas todos nós nos lembramos do que se passou em 2010, 2011 e 2012, antes e depois do último resgate do país.

 

Um economista não pode nem deve olhar para a economia portuguesa com muito otimismo. Logicamente que o PIB cresceu, que o desemprego diminuiu, muito graças à evolução de alguns setores de atividade em que se destaca o turismo, que as receitas fiscais têm aumentado quer em valor absoluto como em valor relativo face ao PIB, que o investimento começa a ser mais dinâmico, mas o principal problema do país mantém-se: o endividamento é elevado e continua a aumentar, o que é um grande problema a prazo.

 

Economista

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