Carlos Bastardo
Carlos Bastardo 27 de junho de 2019 às 10:30

Os prejuízos que dão prémios

A "performance" anual da empresa expressa nos lucros obtidos e a avaliação do desempenho anual dos colaboradores são as premissas básicas para a atribuição de um bónus ou prémio.

Quando pensei em escrever sobre a recente polémica do pagamento de prémios numa empresa que teve prejuízos e com participação do Estado no capital social, ainda pensei colocar como título o nome de dois filmes: "Les uns et les autres" ou "Os deuses devem estar loucos".

 

De facto, neste país, quando pensamos que já vimos tudo, eis que acontece mais uma surpresa. O problema é que se sucedem as surpresas negativas para a imagem do país e os últimos tempos têm sido palco de algumas!

 

Em qualquer escola de Finanças, de Gestão ou de Economia, seja pública ou privada, os alunos aprendem nas disciplinas de Finanças Empresariais que uma empresa destina uma percentagem dos lucros que teve no exercício económico para pagar bónus ou prémios.

 

Curioso que não houve dividendos para os acionistas (porque não houve lucros), mas houve prémios de desempenho para alguns.

 

Será que os pilotos que são uma das traves-mestras de uma empresa de aviação receberam prémios, ou o pessoal de terra ou outros colaboradores que trabalham em áreas essenciais ao funcionamento da empresa?

 

A "performance" anual da empresa expressa nos lucros obtidos e a avaliação do desempenho anual dos colaboradores são as premissas básicas para a atribuição de um bónus ou prémio.

 

Contudo, passamos a ter um novo "case study" em Portugal: o de uma empresa que teve prejuízos num exercício económico (aliás, num período longo de observações foram poucos os anos em que teve lucros), mas que pagou prémios a colaboradores, alguns com menos de 12 meses de tempo de empresa, de acordo com o que li / ouvi na comunicação social.

 

A situação é grave, porque o Estado é o maior acionista da empresa e tem membros que o representam no conselho de administração.

 

Seria muito estranho que uma decisão de pagamento de prémios não fosse proposta ou pelo menos apresentada pela comissão executiva ao conselho de administração.

 

Contudo, li na imprensa que esses representantes do Estado ficaram admirados não com o ato em si (parece que afinal conheciam o mesmo), mas apenas com o valor dos prémios pagos.

 

De facto, não é o valor dos prémios que está aqui em causa, independentemente de serem merecidos ou não, ou de serem de justo valor ou de importância elevada.

 

O que está em causa é uma empresa com participação do Estado (aliás, é o maior acionista) e que teve prejuízos, decidir pagar prémios a alguns colaboradores, quando existem empresas com participação do Estado no seu capital social e que sempre deram lucros e cujos prémios, pelo menos desde o resgate da falência do país em 2011, não existiram, ou seja, têm sido zero.

 

Parece que neste país existem trabalhadores do Estado e de empresas participadas pelo Estado de primeira e de segunda. E já nem falo na questão dos contribuintes!

 

Isto é correto? Claro que não. Os esforços têm de ser de todos. Os prémios são uma variável que deve estar diretamente relacionada com a "performance" da empresa e com o profissionalismo dos colaboradores, evidenciado pela avaliação de desempenho anual.

 

Se nesta legislatura já foram efetuadas reversões, ora aqui está uma situação, esta sim, que merecia ser revertida. É apenas uma questão de querer tomar essa decisão. Ficamos à espera!

 

Economista

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