Carlos Bastardo
Carlos Bastardo 09 de julho de 2013 às 00:01

Zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades!...

2014 está cada vez mais perto e a continuarmos neste trilho de austeridade severa, vai ser extremamente difícil ir aos mercados. Vejam o que aconteceu recentemente: em apenas 4 dias a yield das obrigações do tesouro português subiu quase 1%, passando de 5,9% para 6,9%.

Quando numa empresa as coisas não correm bem, os sócios ou os accionistas racionais zangam-se e enfrentam os problemas que acabam muitas vezes por ser resolvidos com a mudança de trajectória. 


Parece estar a passar-se o mesmo com a Troika, isto é, o FMI versus CE/BCE. Os ataques ao FMI por parte dos decisores europeus têm sido uma constante nas últimas semanas. Este ambiente de guerrilha de palavras não é bom para a já medíocre confiança que se vive na zona euro.

Sabemos que a receita do FMI é sempre a mesma: cortar a fundo. É lógico que, quando os países ultrapassam o razoável têm de ajustar. Contudo, ao longo da história, os resultados do FMI nem sempre foram brilhantes, casos da América Latina e mais recentemente dos países do Sul da Europa.

Mas o FMI consegue reconhecer os erros, apesar de os repetir algumas vezes. Recentemente, reconheceu que o multiplicador de contracção da economia que estava a usar era optimista face ao impacto real de um ajustamento e que falhou na Grécia.

Já a Comissão Europeia e o próprio BCE têm mais dificuldade a assumir o erro. No início de Julho de 2008, o BCE preocupado com o "fantasma" da inflação subiu a refi rate de 4% para 4,25%, quando os indicadores de confiança dos consumidores já estavam nessa altura em mínimos de três anos. A crise financeira já estava em curso desde Março de 2007 e por isso os efeitos na economia já se faziam sentir. Sem consumo, como podem existir pressões inflacionistas (veja-se a situação actual na Europa e até em Portugal).

A receita macroeconómica imposta aos países do Sul da Europa foi exagerada por defeito antes e nos primeiros tempos da crise (falhas de controlo, de supervisão e deficiente percepção dos problemas) e por excesso nos últimos três anos (as overdoses por vezes matam).

Como os responsáveis da Troika sentem alguma incapacidade de reverter a actual recessão económica e as dificuldades europeias acabam por se alastrar a todos os blocos económicos mundiais (EUA, Japão, países BRIC e emergentes em geral), tratam de atirar as culpas para os outros ou de arranjarem desculpas com os erros dos outros.

Não deviam antes parar para pensar? Colocar trancas na porta depois da casa roubada nem sempre resulta. O défice público face ao PIB reduz-se de duas maneiras: ou pela redução do numerador (valor do défice) ou pelo aumento do denominador (PIB). Hoje, os decisores europeus sabem, mas não querem admitir publicamente que erraram estrondosamente em termos macroeconómicos.

O medo alemão da inflação ultrapassou os limites aceitáveis. A austeridade imposta que note-se, foi e é necessária face aos erros do ciclo anterior, foi desenhada em termos desequilibrados e os resultados estão à vista. Basta comparar as estimativas de evolução do PIB do memorando inicial da Troika para Portugal com os dados reais: o memorando apontava para quedas do PIB de 2% em 2011 e 2012 e recuperação a partir de 2013; o PIB caiu 1,6% em 2011, 3,2% em 2012 e este ano deverá cair entre 2,5% e 3%. No que respeita ao défice público em % do PIB, as estimativas do memorando apontavam para 5,9% em 2011, 4,5% em 2012 e 3% em 2013, valores completamente ultrapassados. E quanto ao desemprego, é melhor nem falar: dos cerca de 15% previstos para final de 2013, deveremos encerrar o ano perto dos 18%, com o desemprego jovem acima dos 40%.

Portanto, quem quiser esconder o falhanço da Troika não o pode fazer. Mas o que interessa agora é que os responsáveis da Troika na 8.ª avaliação façam um balanço rigoroso e acima de tudo, apontem saídas para dinamizar a economia. Será que sabem, perguntarão alguns dos leitores? Eu penso sinceramente que sabem e que terão mesmo de as apresentar. Será uma forma de salvar a face!

É que 2014 está cada vez mais perto e a continuarmos neste trilho de austeridade severa, vai ser extremamente difícil ir aos mercados. Vejam o que aconteceu recentemente: em apenas 4 dias a yield das obrigações do tesouro português subiu quase 1%, passando de 5,9% para 6,9%.

Economista. Autor do livro Gestão de Activos Financeiros – Back to Basis

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