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Carlos Vieira cfvieira@ensinus.pt 18 de Outubro de 2015 às 18:13

Corrupção S.A. 

Este texto já vinha por mim a ser planeado há uns tempos. Este tema, como outros, precisava muitas vezes do "clique", do momento que espoleta tudo o que se segue e o que se escreve. Pois bem, sempre achei que a perceção da corrupção em Portugal é excessiva.

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O cidadão nacional habituou-se a catalogar tudo o que são contactos terceiros solicitando apoio, ajuda, para si ou para os seus, como corrupção. Daí, ao fazer essa avaliação coloca o país no lugar 31 do índice de perceção de corrupção. Somos, assim, o 31.º país mais transparente, num total de 175 países analisados. Analisando os critérios e as metodologias que constroem este índice(1) pode-se verificar que o mesmo é suportado pelos sentimentos que os cidadãos têm sobre a existência de corrupção. Logo, o foco é na perceção e não sobre a realidade estatística de causa/efeito entre, por exemplo, notícias nos meios de comunicação sobre corrupção vs. condenações em tribunal.

 

Assim, pela análise empírica que faço, há dois efeitos que julgo que afetam negativamente esta perceção dos portugueses. O primeiro é a relativa à nossa já histórica "inveja" que nos faz ver cenários e razões menos boas e menos claras no sucesso do vizinho. Tendo já escrito isto no passado, e revisitando "Os Lusíadas" onde o termo surge escrito por nove vezes, sendo essa a última palavra escrita na obra matriz da Portugalidade, recordo a importância dos sentimentos e da personalidade de cada um na avaliação que fazemos.

 

O segundo efeito é a falta de um enquadramento legal sobre as formas de pressão feitas sobre terceiros, designadamente membros de governos, parlamentares, entidades públicas ou reguladores e outras entidades relevantes. Esta atividade, designada de "lobbying" não tem, infelizmente ainda enquadramento legal em Portugal e muitas vezes é confundido (e a própria legislação favorece a confusão) com o conceito de tráfico de influências(2). A recente tentativa de construção de uma plataforma legal que sustentasse o "lobbying" foi suspensa em junho do corrente ano e levantou logo um coro de críticas por manter fora de regulação os próprios deputados. Independentemente da necessidade desta peça legislativa, considero relevante que se faça um trabalho na sociedade que exemplifique e que estruture um modelo de transparência e que se eduquem os cidadãos desde tenra idade para a importância da defesa dos interesses individuais e coletivos, sem receio de se estar a cometer alguma ilegalidade e como reforço da democracia.

 

Esta preocupação sai reforçada quando, por exemplo, olhamos para a realidade na Alemanha, que surge no já referido "ranking" em 12.º lugar. E depois olhamos com assombro para a crise criada pelo escândalo das emissões e para a forma como se institucionalizou em diversas empresas um engano e uma fraude de dimensões épicas, que joga com uma das questões mais queridas da sociedade atual - a proteção do ambiente. E pergunto: então e nós é que somos os corruptos? E além da corrupção legal, como ficamos com a "corrupção da alma". Claro que o spin publicitário que surgiu na passada semana está muito bem construído, enredado numa simplicidade que deu muito trabalho a construir. É nestes dias que, sem agrado e sem revanchismo volto a gostar de olhar para aqueles que já citei por aqui várias vezes como André Jordan que no jornal Sol de 2 de outubro afirmava: "Sempre achei que não havia grande corrupção em Portugal." Nem mais! Queiramos nós alterar as nossas perceções e lutar para que a inveja que possuímos seja transformada em vontade de superar os melhores e teremos um país na linha da frente.

 

Finalizando, e relembrando mais uma vez "Os Lusíadas", no seu canto X:

 

"Fazei, Senhor, que nunca os admirados

Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses,

Possam dizer que são pera mandados,

Mais que pera mandar, os Portugueses."

 

P.S.: gostarei muito de ler o Roteiros X do nosso Presidente da República sobre a forma como ele viveu estes dias e como resolveu (ou não!) a gestão governativa desta nobre Nação.

 

(1)http://www.transparency.org/cpi2014/in_detail#myAnchor2

(2)A este propósito aconselho a leitura de uma tese de mestrado que teve a orientação do Professor Germano Marques da Silva em http://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/8947/1/Tese%20-%20Tr%C3%A1fico%20de%20Influ%C3%AAncia.pdf

 

Administrador ISG

 

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