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Cristina Casalinho 26 de Junho de 2016 às 21:25

Na hora da despedida

O resultado do referendo no Reino Unido foi surpreendente e faltam boas ideias sobre as suas consequências. Existem razões históricas e acontecimentos passados que nos deveriam ter preparado para este desenlace. Casos em que temas europeus foram referendados, os resultados nunca foram inequivocamente favoráveis a avanços do projeto europeu.

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O Reino Unido não foi país fundador do projeto europeu. A Comunidade Económica Europeia (CEE) foi criada em 1957 com França, Alemanha, Itália e países do Benelux (Bélgica, Holanda e Luxemburgo). A União Europeia foi-se alargando. Porém, o alargamento nem sempre foi pacífico.

Depois de cerca de sessenta anos de esforço de expansão da UE, prepara-se o primeiro abandono. Pode-se tentar encontrar algumas pistas sobre as consequências na votação. Os mais jovens (com menos de cinquenta anos), mais pobres (Escócia e Irlanda do Norte) e mais globalizados (Londres) votaram a favor da permanência. Para qualquer um destes grupos, o seu país é o mundo. Dentro ou fora de portas, competem por postos de trabalho com profissionais qualificados de qualquer parte do mundo.

O Reino Unido, a par da Alemanha, foram as duas economias que melhor responderam ao desafio da globalização e que hoje estão mais expostas aos mercados emergentes. Após anos de fraco desempenho económico, na década de 1980, os primeiros encerraram a maioria das fábricas e orientaram-se para serviços e para novas tecnologias de informação e comunicação. O mercado de trabalho foi reformado e o Estado Social repensado. Os segundos, igualmente no seguimento de vários anos de debilidade económica, na segunda metade da década de 90, reformaram o mercado de trabalho e redesenharam o Estado Social. Embora mantendo as indústrias tradicionais, a competitividade aumentou, buscando dinamismo nos mercados emergentes.

Olhando para a Europa de hoje, constata-se que existe maior proximidade, em temas económicos, entre Reino Unido e Alemanha que entre Alemanha e França ou Itália, outros fundadores. Não é por acaso que a maior parte dos movimentos de migrantes se orienta para estes dois espaços económicos, que oferecem maior dinamismo e maior abertura económica num mundo globalizado. Como consequência da crise da dívida soberana de 2010-2011, a evolução do projeto europeu avançou rapidamente mas essencialmente na área do euro. As ações do BCE, os avanços da União Bancária e a discussão sobre partilha ou redução de riscos envolvem sobretudo os membros do euro.

Os grandes temas europeus hoje revolvem em torno de preocupações da área do euro, que diretamente dizem menos ao Reino Unido ou à Dinamarca. Na medida em que, como o presidente do BCE reconhece, o crescimento económico futuro da Europa depende não exclusivamente da política monetária, mas da forma como os estados pensam a economia de molde a poder responder aos desafios do futuro, designadamente de forma a criar emprego e proporcionar uma distribuição mais equilibrada de rendimentos, possibilitando a integração das populações mais jovens. A saída do Reino Unido pode ser encarada com preocupação, pelo exemplo em termos de taxa de participação no mercado de trabalho e desemprego, sobretudo jovem.


Os desafios na UE não se circunscrevem à componente política. Muitos acreditam que a crise económica fornece os argumentos para forjar uma mais forte união política de estados europeus, podendo-se evoluir para um modelo de inspiração federalista. Qualquer projeto político federalista carece de uma vertente militar. Ora, a UE observa manifestas fragilidades a este respeito, sobretudo com a saída do Reino Unido. As guerras no Médio Oriente e no Norte de África mostraram uma frente europeia muito pouco unida, colocando sérias interrogações ao projeto político europeu.

A gestão da crise na Geórgia ou na Ucrânia, pelo lado político, ou da crise da dívida soberana, pelo lado económico, suscitam dúvidas sobre a vitalidade do projeto europeu. O abandono do Reino Unido tenderá a ampliar o debate sobre as vantagens políticas e económicas da UE, num momento em que o tradicional equilíbrio de forças entre França e Alemanha se encontra em risco. Este momento é uma oportunidade para repensar o modelo e torná-lo mais capaz de responder às necessidades de crescimento, rendimento e emprego. 

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