Cristina Casalinho
Cristina Casalinho 28 de fevereiro de 2019 às 18:41

A próxima onda

A economia portuguesa registou um crescimento real de 2,1% em 2018 depois de se ter expandido a um ritmo de 2,8% no ano anterior, continuando a revelar uma evolução económica mais dinâmica que o conjunto da área do euro.

Contudo, nos últimos trimestres de 2018, observou-se um abrandamento da atividade económica doméstica em linha com o verificado ao nível da economia global. Para 2019, as projeções económicas das principais instituições apontam para a continuação da desaceleração, prevendo-se um crescimento económico de 1,8% (previsão do Banco de Portugal). A fase de expansão económica poderá, então, estar a entrar num período menos dinâmico, fenómeno que não será exclusivo de Portugal.

 

A desaceleração económica, global ou específica de uma economia, tende a convocar receios de várias ordens, na medida em que períodos de menos crescimento caracterizam-se pelo agravamento de fragilidades, destapando desequilíbrios anteriormente adormecidos pelo dinamismo geral da economia. Portugal continua a apresentar debilidades económicas bem identificadas a despeito dos progressos recentes ao nível de maior capacidade de expansão e correção de desequilíbrios. O ponto fraco da economia portuguesa afigura-se consensual: elevado nível de endividamento dos setores público e privado. Este constrangimento ao crescimento torna-se mais agudo em momentos em que o dinamismo abranda, tornando mais difícil o cumprimento do serviço da elevada dívida.

 

A este respeito, observam-se melhorias de relevo. Não só o ambiente de taxas de juro é hoje muito mais favorável que no passado recente. Ao nível da dívida pública, as taxas de juro nos dez anos encontram-se em mínimos históricos. Por seu turno, o mecanismo de transmissão monetária foi restaurado, porquanto as taxas de juro associadas ao crédito bancário reduziram-se, oferecendo algum espaço para acomodação do impacto da desaceleração económica.

 

O maior progresso aconteceu, contudo, ao nível do "stock". Efetivamente, entre o máximo histórico e os níveis atuais, o endividamento do setor privado reduziu-se em cerca de 66 pontos percentuais do PIB. Na medida em que os picos não foram temporalmente coincidentes no caso de empresas não financeiras e famílias, constata-se que, desde o máximo de 127,5% do PIB até aos presentes 99,7%, o endividamento das famílias contraiu-se em quase 30 p.p. do PIB. Mas, os avanços no setor empresarial privado são ainda mais notáveis: queda de 180,6% para 134,5% do PIB, situando-se num patamar inferior à média da área do euro (136,7%). Igualmente de destaque é o facto de a desalavancagem das empresas portuguesas não ter obstaculizado a retoma do investimento, o qual registou um acréscimo real de 9,2% em 2017 e 5,6% em 2018. A nível do setor público, os progressos foram mais tímidos. Porém, o rácio de dívida pública ter-se-á reduzido do máximo de 130,6% em 2014 para uma previsão de 121,5% para 2018.

 

A redução do endividamento português é tanto mais relevante quanto coincide com capacidade de geração de excedentes externos desde 2013. Com efeito, apesar da queda do saldo externo positivo de €2,7 mil milhões em 2017 para €902 milhões em 2018, devido sobretudo à deterioração do saldo comercial (bens) em €2,6 mil milhões, existem efeitos de "stock" que importa relevar. Em particular, a dívida externa encontrava-se no final de 2018 abaixo de 90% do PIB, o valor mais baixo desde 2011 e a posição de investimento internacional aproximava-se da fasquia de 100%.

 

Na medida em que as variáveis da procura que mais crescem são o investimento (5,6%) e as exportações (3,7% embora as importações tenham aumentado 4,9%), com contributos para o PIB inferiores aos pesos desejáveis para uma economia da dimensão da nacional, que o investimento tem sido promovido essencialmente pela melhoria de rendibilidade das empresas nacionais e capacidade de orientação de lucros para financiamento de expansão de atividade, que a dependência do crédito e o peso do serviço da dívida foram aliviados, e que o grau de exposição ou sujeição a poupanças externas encolheu, a economia portuguesa está mais habilitada para enfrentar a próxima onda de abrandamento económico. Este será um teste ao presente modelo económico interessante de seguir.  

 

Economista

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