Cristina Casalinho
Cristina Casalinho 18 de setembro de 2014 às 21:00

Abrir e fechar buracos

A economia europeia apresenta um crescimento modesto ou estagnação. O risco de deflação impõe desafios adicionais ao desendividamento dos Estados, empresas e famílias.

Face a níveis globais de dívida na vizinhança de 90%, não se poderá esperar demasiado da política monetária como motor de estímulo da atividade económica. Pode promover progressos na reparação da fragmentação do mercado de crédito, proporcionando a queda dos prémios de risco e equilibrando as condições de acesso ao financiamento, minorando assimetrias concorrenciais entre empresas da periferia e do centro da Europa. Pode ainda empurrar a taxa de câmbio do euro para patamares inferiores, facilitando exportações, sobretudo das mais sensíveis ao fator preço. Portanto, favorece a estabilização da procura doméstica e estimula a componente externa. A política orçamental dispõe de margem de manobra igualmente condicionada, quando os défices superam em média 3% do PIB e as economias crescem nominalmente próximo de 1.5%. Apesar de taxas de juro próximas de 1%, as dívidas públicas são empurradas para próximo de 100%. Não obstante, existem opções de estímulo que podem ser testadas.

 

Na Europa, avança-se com a proposta de criação de um fundo destinado ao financiamento de investimentos públicos infraestruturais, podendo englobar interconectividade (por exemplo, mediante maior capilaridade da rede de comboios de alta velocidade), energia e armamento. Estes dois últimos destinos de fundos europeus são uma relativa novidade, abrindo possibilidades promissoras.

 

A energia é um tema que ganha relevância na discussão do crescimento potencial das economias desenvolvidas. Direcionar fundos europeus para olhar integradamente para a resolução do problema energético poderá vir a revelar-se instrumental nos avanços do crescimento da união. Desde o encerramento das centrais nucleares japonesas após o acidente de Fukushima em 2011, o défice externo japonês deteriorou-se significativamente em resultado do forte aumento das importações de combustíveis fósseis e o custo de produção elevou-se, impondo desafios de competitividade. Na Alemanha, as autoridades decidiram acelerar o plano de encerramento das centrais nucleares, apostando fortemente na substituição da energia nuclear por energias renováveis com particular destaque para a eólica. O modelo de incentivos e subsídios usado implicou um aumento do preço no consumidor, industrial e doméstico, de cerca de 60% nos últimos cinco anos. Hoje, o custo da energia para a indústria manufatureira alemã é o dobro do verificado nos EUA. Por outro lado, cresce a controvérsia em torno da produção e distribuição da energia eólica produzida on e offshore, devido ao risco das radiações, dificuldades operacionais com turbinas, e pela inevitabilidade de unidades geradoras alternativas para assegurar picos de consumo ou quando não existe geração de energia eólica ou solar. Entretanto, por maior recurso às centrais a carvão, a emissão de gases de estufa aumentou. Nos EUA, a opção foi diferente. Intensificou-se o modelo baseado em combustíveis fósseis.

 

Com o desenvolvimento da fracturação hidráulica (designadamente a mais recente perfuração horizontal) que permite a aceder a novas jazidas de gás e petróleo de xisto, a economia americana conseguiu reduzir significativamente o seu défice externo e praticar custos energéticos comparativamente baixos, os quais, aparentemente, ajudarão a explicar algum regresso das indústrias manufatureiras (embora longe de um processo de reindustrialização). Todavia, esta indústria nascente enfrenta fortes críticas: altamente poluente da água potável, aumento de risco de terramotos, forte intensidade de uso de energia e rápida exaustão dos novos poços.

 

A aposta no rearmamento da Europa configura igualmente espaço para dinamização económica; recorde-se o papel desempenhado por esta indústria entre guerras. Os países do norte da Europa, com destaque para os estados bálticos, assusta-se com os acontecimentos a leste e depara-se com uma linha de defesa muito ténue. Por exemplo, a Finlândia reclama do investimento nulo em defesa por parte da Suécia na última década, quando observa com apreensão os avanços russos sobre a Ucrânia. A Polónia acolitada por estados bálticos manifesta desconforto perante a deriva hegemónica da Rússia, solicitando maior atenção à vertente defensiva da UE. Antigas potências territoriais fletem os músculos. A China tem aumentado significativamente o seu poder militar, elevando o nível de conflitualidade com os seus vizinhos, levando Vietname e Japão a destinarem mais recursos ao esforço militar. O Japão reforça a sua força naval, contrariando uma consequência do pós-guerra.

 

Um plano de investimentos europeus, de cariz keynesiano, com objetivos bem definidos e orientado para a remoção de obstáculos ao acréscimo de produtividade ou para suprir atrasos europeus relativamente a tendências dominantes, pode ajudar à redinamização da economia europeia, potencializando ganhos de competitividade e criação de emprego.

 

Economista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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