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Cristina Casalinho 16 de Julho de 2020 às 20:01

Cidades no futuro

Para as cidades, convergirão as populações mais jovens, em início de vida profissional, em busca de divertimento e relações pessoais que promovem as carreiras. Os jovens terão de passar tempo suficiente nos escritórios para absorverem a cultura corporativa.

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A pandemia e as suas consequências, em termos de economia, saúde, alteração de preferências dos agentes económicos, modelos de organização do trabalho, futuro das cidades, têm sido largamente discutidas. O trabalho remoto surge como tema incontornável nestes debates. No último mês foram publicados dois textos no Financial Times em que peritos em educação e urbanismo exploraram o impacto do trabalho remoto nestas duas áreas. Apesar das perspetivas e pontos de partida distintos, ambos coincidiam na disseminação e perenidade do teletrabalho, virtudes e vícios. Uma das principais desvantagens apontadas é a dificuldade de estabelecimento e alargamento de relações sociais, colocando desafios insuperáveis a indústrias de criatividade ou, para novos entrantes, atividades com forte cultura corporativa.

Quando se debate a educação, concretamente universitária nos EUA, a despeito do reconhecimento que a experiência virtual, ao nível de aprendizagem formal, implicaria custos limitados, a aprendizagem informal, o processo de crescimento que envolve a saída da casa paterna, a formação de uma rede de conhecimentos e amizades, constante ao longo da vida, encontram-se comprometidos. As componentes criativa, social e emocional do processo de aprendizagem ficam irremediavelmente constrangidas. A experiência do estudo com os amigos, as festas, as conversas nos refeitórios, nos corredores, nas aulas, a efervescência da concentração de um conjunto de pessoas com interesses, motivações e vontade de descoberta num único local, são irreplicáveis numa reunião virtual, por muito que aproxime as pessoas e seja eficiente nos seus propósitos práticos. No caso português e olhando para a muito bem-sucedida experiência do programa Erasmus, excetuando o objetivo particular de ter acesso a professores e conteúdos específicos, a opção pelo programa Erasmus baseia-se na ideia de experienciar diretamente a vida numa comunidade distinta da nacional – encontrar um país diferente, pessoas diversas, … A necessidade de criação de uma rede de ligações e acesso a um mundo diferente, in loco, emerge como principal justificação destas escolhas, as quais não têm resposta totalmente cabal, por ora, nas opções digitais disponíveis. Por outro lado, no futuro, a valorização atribuída a estes fatores pode ser totalmente alterada e predominar a opção pelo contacto com amigos, família, colaboradores, professores, alunos por via digital. A urgência sanitária pode, fácil e inexoravelmente, conduzir a uma reordenação de preferências.

Richard Florida, teórico do urbanismo, numa breve entrevista para o jornal, discorre sobre o futuro das cidades pós-covid. A sua visão aponta para cidades com população mais jovem, menos escritórios e lojas. Uma vez que o teletrabalho se manterá, afetará sobretudo as profissões que dominam os escritórios, a população a meio da carreira profissional, com filhos, deslocar-se-á para fora dos centros urbanos, procurando localidades amplas, com vastas áreas verdes, com espaço de lazer, mas igualmente as principais amenidades das grandes cidades: serviços pessoais, escolas, espaços recreativos e culturais. Para as cidades, convergirão as populações mais jovens, em início de vida profissional, em busca de divertimento e relações pessoais que promovem as carreiras. Os jovens terão de passar tempo suficiente nos escritórios para absorverem a cultura corporativa. Para este autor, quem sai de uma grande cidade será exigente na escolha da nova localidade. As cidades mais penalizadas pelos efeitos da pandemia serão sobretudo áreas com más escolas, oferta limitada de serviços e longas horas de deslocação. Cidades como Nova Iorque, Londres ou Paris serão forçadas a mudar e reajustar-se-ão: a área de escritórios e lojas deverá retrair-se, favorecendo o avanço das zonas residenciais. Este movimento poderá facilitar o seu rejuvenescimento e gentrificação. O momento presente, pelos desafios sanitários, económicos e sociais que coloca, deverá ser aproveitado para a concretização de uma conceção mais inclusiva da cidade.

O combate da pandemia impulsionou um enorme salto digital. Digitalização, robotização, “eletronificação”, potencializam produtividade e eficácia em serviços-fábrica, catalisando a revolução industrial dos serviços. Embora persistam vantagens inquestionáveis, estas são menos abrangentes nas atividades desenvolvidas em setores de primeira linha (como: logística, transportes, saúde, educação, cuidados pessoais, hospitalidade, cultura e recreação, entre outros) e/ou com forte componente criativa. A ida à escola, às compras ou a um concerto exige e ganha pelo que representa sair de casa, física, social e emocionalmente. n

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