Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
Cristina Casalinho 17 de Junho de 2016 às 00:01

Desta vez pode/tem de ser diferente

A recuperação económica pós-crise financeira afigura-se diferente das anteriores - crescimento modesto, inflação baixa, desemprego com ganhos limitados, diminuto progresso no rendimento.

  • Assine já 1€/1 mês
  • 2
  • ...

Se o consumo privado tem feito o seu caminho, o investimento desaponta globalmente e a força de trabalho desencorajada pela crise não regressa ao mercado de trabalho. Nos EUA, a despeito da queda consistente da taxa de desemprego, a participação no mercado continua a contrair e o rendimento não regista evolução assinalável. Na Alemanha, o desemprego permanece em retração; mas, após cerca de cinco anos de congelamento, começam os salários a subir. Por outro lado, os novos empregos criados sobretudo os absorvidos pelas camadas mais jovens da população caracterizam-se por salários baixos.

 

Ao longo dos últimos anos, designadamente no rescaldo da recente crise, acentuou-se o nível de assimetria social. No mundo anglo-saxónico, esta evolução ganhou destaque. A concentração de rendimento torna-se um travão ao crescimento, sobretudo se conjugada com elevados níveis de endividamento da classe média e tímidos progressos na produtividade. A população com maior rendimento observa menor propensão ao consumo, acumula mais poupança, alimentando inflação dos ativos financeiros. Do outro lado do espectro, nas famílias de menores rendimentos, o serviço da dívida pesa, inibindo padrões mais dinâmicos de consumo. Sem perspetivas encorajadoras de consumo, os empresários retraem-se. Porquê aumentar a capacidade de oferta, se a existente não encontra procura em aceleração? Deste modo, o agravamento da assimetria de rendimentos conjugado com elevado patamar de endividamento de amplas camadas da sociedade pode deprimir o produto potencial de uma economia. Do lado do investimento, além das parcas expetativas de acréscimo de procura, defrontamo-nos com diminutos avanços na produtividade, indutores de menores crescimentos de rendimento. Se o bolo do rendimento cresce pouco, as possibilidades de distribuição tendem a mirrar.

 

A esta envolvente pouco estimulante adicionam-se Estados endividados e/ou a braços com os desafios do envelhecimento da população. Num esforço para enfrentar as necessidades crescentes, os Estados reduzem serviços, aumentam ou alteram a composição da carga fiscal, podendo agudizar a anemia do investimento, o desencorajamento da entrada no mercado de trabalho e a distribuição de rendimentos, favorecendo a estagnação secular. A política monetária acomodatícia, conduzindo a taxas de juro negativas, penaliza a poupança e poderia estimular mais o consumo dos maiores poupadores, aliviando o efeito de enviesamento da concentração de rendimentos. Porém, as taxas negativas causam perplexidade e adicionam-se à complexidade do mundo, criando elementos adicionais de incerteza. Atuam positivamente mediante o alívio das condições de pagamento de dívida e de crescimento via exportações, mas constituem mais um fator de incerteza e instabilidade - porventura, desmobilizando investimento e consumo.

 

Para o crescimento económico, aparentemente, tão ou mais determinante do que as políticas monetárias e orçamentais é a existência de equilíbrio nas forças modernizadoras/destruidoras da economia, assegurado por instituições inclusivas. No período pós-recessão global, economias mais igualitárias, dominadas por instituições mais inclusivas, maior taxa de participação na força de trabalho e investimento público em infraestruturas, têm-se destacado em termos de desempenho (ver comportamento de Suécia, Dinamarca e Holanda versus países do Centro/Sul da Europa).

 

Economista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

Ver comentários
Mais artigos do Autor
Ver mais
Mais lidas
Outras Notícias