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Cristina Casalinho 12 de Março de 2020 às 21:12

Espelho meu

Considerando uma lógica de bem-estar, recorrendo a indicadores como a esperança de vida à nascença ou a taxa de suicídio, conclui-se que Portugal apresenta um desempenho melhor do que as economias leste-europeias.

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Nos últimos anos, Portugal foi apanhado e ultrapassado pelo grupo de países do Leste da Europa. Enquanto Portugal crescia em média 2% em termos reais nos últimos cinco anos, aquelas economias expandiam-se a taxas confortavelmente acima de 3%. Mas será o crescimento real do produto interno (PIB) global ou do PIB por habitante uma boa métrica para avaliar o progresso económico ou o bem-estar de uma economia?

Considerando uma lógica de bem-estar, recorrendo a indicadores como a esperança de vida à nascença ou a taxa de suicídio, conclui-se que Portugal apresenta um desempenho melhor do que as economias leste-europeias. Concretizando: a esperança de vida à nascença em Portugal ascende a 81,3 anos que compara com níveis entre 81 e 75,9 anos no Leste europeu. Por outro lado, a taxa de suicídio é 9,2 por 100.000 em Portugal e compara com valores entre 12,4 e 17,5 nestas economias. Analisando a mediana da riqueza líquida, a maioria destas economias apresenta valores inferiores a Portugal, sendo também os sinais de desigualdade mais acentuados nas economias de leste que em Portugal (embora com exceção da Polónia). A despesa social é igualmente superior em Portugal, correspondendo a cerca de 25% do PIB que compara com valores em torno de 10% do PIB. Todavia, a demografia e as condições de mercado de trabalho poderão justificar, parcialmente, este comportamento, uma vez que as diferenças observadas não são irrelevantes: a população com mais de 65 anos representa 20% da população portuguesa face a 18% naquelas economias, embora a taxa de desemprego de 6,5% em Portugal compare com valores que oscilam entre 9,8% e 4%.

Olhando para as maiores economias na Europa com crescimento económico mais forte nos últimos anos, a Alemanha destaca-se, com os seus cerca de 2% de expansão económica real. Todavia, o milagre económico alemão, transfigurando-se do “homem doente da Europa” na década de 1990, teve custos. Aliás, o Fundo Monetário Económico (FMI) numa recente análise da economia germânica destaca o facto de o recente modelo de crescimento teutónico ter agravado assimetrias sociais e de parte da população não ter beneficiado das melhorias económicas. Com efeito, surpreende constatar que a mediana da riqueza líquida na Alemanha apenas supera este indicador em cinco países na Zona Euro (Letónia, Hungria, Estónia, Eslováquia e Polónia) e a percentagem de riqueza apropriada pelo 1% mais rico da população (cerca de 25%) apenas é ultrapassado por Holanda e Áustria. Curiosamente, economias com menor crescimento, como Itália ou Grécia, observam sociedades menos desiguais (menos de 10% da riqueza apropriada por 1% da população mais rica).

 

Curiosamente, economias com menor crescimento, como Itália ou Grécia, observam sociedades menos desiguais.



A alteração das condições iniciais ao nível da qualificação da força de trabalho proporciona incremento significativo de crescimento potencial da economia portuguesa, promovendo uma aproximação a este grupo de países que agora parece escapar. Importa referir que cerca de 72% da força de trabalho em 2008 tinha completado o primeiro e segundo ciclo em Portugal face a 32% da área do euro, valores que, passados dez anos, desceram para 53% e 26%, respetivamente. Por seu lado, em 2008 os trabalhadores com formação universitária correspondiam a 14% face 24% na área do euro, tendo a diferença encurtado para 5 pontos percentuais mediante a subida do valor nacional para 24%. É um importante obstáculo à produtividade em remoção.

Portugal cresceu menos que outras economias europeias, mas tal não parece significar que a população, em média, esteja pior que noutras economias que cresceram mais. No que respeita a mediana de riqueza líquida, Portugal continua a comparar favoravelmente, o mesmo pode ser dito no que concerne a medidas aproximadas de bem-estar. Certamente não nos devemos satisfazer com os resultados alcançados e ambicionar melhorar: porém, numa lógica que permita assegurar que as características sociais da economia não se deterioram. Tanto quanto assegurar que a economia cresce, importa saber qual a base da expansão e como a riqueza é apropriada.

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