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Cristina Casalinho 17 de Janeiro de 2016 às 19:00

Esperado e inesperado: descubra as diferenças 

No início de cada ano, definem-se cenários para construção de planos de ação ao longo dos meses seguintes. Estes cenários são ancorados em hipóteses que terão mais ou menos razoabilidade.

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As principais hipóteses associadas ao cenário macroeconómico dominante (ou mais consensual) consistem na aceleração da atividade económica das economias desenvolvidas a par de abrandamento de ritmo de crescimento dos países emergentes, sobretudo os mais afetados pelo ciclo das matérias-primas. A inflação deverá manter-se contida, em resultado da existência de alguma folga produtiva ao nível mundial. Devido aos sinais de retoma económica nos EUA, a Reserva Federal iniciou o movimento de subida de taxas de juro. Na Europa, os indícios não são suficientemente robustos para a remoção do caráter acomodatício da política monetária. Contudo, as taxas de juro não deverão retornar aos mínimos observados no último ano. Entretanto, os preços do petróleo e das principais matérias-primas deverão persistir pressionados, enquanto a China evolui para outro paradigma de desenvolvimento e as tensões geopolíticas persistem.

 

Este conjunto de assunções permite desenhar cenários moderadamente otimistas para gerir ambientes caracterizados por elevado nível de endividamento. Crescimento modesto e inflação contida favorecem a geração de resultados pelo setor corporativo que conjuntamente com reduzidas taxas de juro promovem o serviço da dívida e um suave processo de desalavancagem. Deste modo, assegura-se a estabilidade de rendimentos e evita-se a deterioração das condições do mercado de trabalho. Assim, consumo privado e investimento continuarão a apresentar um contributo moderado para o crescimento económico. Alguns analistas designam este cenário de "muddle through" ou "esperar que o tempo resolva".

 

Este cenário tem-se vindo a manter no médio prazo devido às limitações ao crescimento impostas pelo nível de endividamento e pelas dificuldades associadas à promoção de alterações estruturais em sociedades envelhecidas. Mas, no curto prazo, existem importantes fatores de risco. As economias ocidentais poderão surpreender negativamente, na medida em que o crescimento poderá ser mais modesto do que o previsto. Como consequência, as taxas de juro poderão manter-se prolongadamente em patamares reduzidos e, eventualmente, a Reserva Federal poderá ser mais lenta na elevação de taxas de juro. Neste caso, o enfraquecimento do euro abrandará enquanto as matérias-primas continuarão a ver os preços constrangidos pela força de oferta versus procura. As autoridades, como o próprio BCE já sinalizou, orientar-se-ão para maior uso da política orçamental, dado a ausência de novos instrumentos de política monetária a que se possa recorrer. Todavia, também estes estão restringidos pelo nível geral de despesa e de dívida. Agudizar-se-ia, então, o sentimento de "esperar que o tempo cure" (impotência).

 

E o que pode surpreender positivamente? O crescimento das economias avançadas pode ser mais robusto do que o antecipado e a inflação mais elevada, favorecendo a desalavancagem. Como consequência, as taxas de juro podem subir ligeiramente (como estão tão baixas, nalguns espaço podem duplicar) e o euro interrompe a sua tendência declinante. Porém, dada a fragilidade da recuperação, condições monetárias mais restritivas poderão pôr em risco a retoma, correndo-se o risco de regresso ao ponto de partida em termos de envolvente económica.

 

Como sempre, o cenário central poderá ser surpreendido pela positiva ou pela negativa. Não obstante, a lógica sedimentar ao comportamento das economias desenvolvidas afigura-se associada à ideia de estagnação secular - baixo crescimento e ausência de inflação. Nesta envolvente, o inesperado, em termos globais, pode produzir resultados não substancialmente diferentes do cenário esperado. Muito embora as variáveis de mercado como taxas de juro, de câmbio ou preços de mercadorias observem muita volatilidade (grandes oscilações de preço) induzida pela incerteza associada à dinâmica económica dominante, no que se refere às variáveis reais, designadamente o produto ou o emprego, vive-se muito próximo da média histórica ou do patamar potencial, observando-se relativa estabilidade. Porquanto o nosso dia a dia é dominado pelas movimentações diárias dos preços, a tendência secular, muito mais relevante para as decisões fundamentais, carateriza-se por maior imperturbabilidade.

 

Economista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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