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Cristina Casalinho 14 de Fevereiro de 2016 às 20:30

Impróprios a cardíacos 

Nos últimos anos, habituámo-nos a assistir a momentos de extraordinária volatilidade. Isto é, movimentos extremos nos preços de ativos financeiros.

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Tradicionalmente, quedas pronunciadas de preços iniciam-se em classes de ativos mais arriscadas, contaminando sucessivamente classes com melhor qualidade creditícia até os títulos mais seguros serem, por sua vez, atingidos. O sentimento dos investidores oscila entre relativo otimismo e profundo pessimismo. Contudo, caracterizar a motivação destes movimentos com base em visões mais ou menos favoráveis do enquadramento macroeconómico global pode ser superficial. Com efeito, a incerteza ou a relativa incapacidade de construção de um cenário global claro emerge como a principal pulsão associada às movimentações observadas.

 

Se, no final do ano passado e início deste ano, a crença dominante consistia na subida de taxas pela Reserva Federal impulsionada pela robustez do crescimento norte-americano, neste momento, acredita-se em crescimentos mais modestos e na manutenção das taxas de juro em níveis reduzidos durante ainda mais tempo. Se o clube dos bancos centrais com taxas de juro negativas incluía o BCE e o Banco Nacional da Suíça, recentemente, juntou-se-lhes o Banco do Japão e, já correm rumores de que, a Reserva Federal pode vir a integrar este clube. Taxas de juro negativas justificam-se numa lógica de política monetária facilitadora de serviço de dívida em sociedades altamente endividadas que não conseguem crescer nem criar inflação.

 

Supostamente, taxas de juro negativas e programas de compra de ativos por parte de bancos centrais deveriam aumentar a tomada de riscos: acelerar o consumo privado e o investimento. Porém, nas economias com taxas negativas, o consumo permanece dormente e o investimento anémico. As taxas de juro negativas foram, no entanto, importantes para a dinamização da competitividade externa e facilitaram o acréscimo das exportações. Ao nível da tomada de risco, pouco se terá notado.

 

A timidez na reação às taxas de juro negativas, no que se refere a maior tomada de risco, poderá estar associada a duas razões: a pouca clareza nas perspetivas de procura e de rendimentos a longo prazo (recordemos que nas economias avançadas o registo de crescimento foi modesto na última década e o andamento dos rendimentos, designadamente do fator trabalho, foi igualmente desapontante) e o elevado endividamento dos setores público e privado. Empresas e famílias, na maioria das economias mais endividadas, têm aproveitado a envolvente favorável de taxas de juro para reduzir o endividamento com sucesso. Ora, sem projeções de incremento da procura, poucos incentivos existirão para se lançar um produto novo (pesquisar, fabricar, divulgar, vender, transportar). Por um lado, se a rendibilidade da poupança é muito baixa, por outro, a incerteza incentiva a poupança.

 

Se ao nível da economia real existem estes constrangimentos ao dinamismo na tomada de risco, ao nível dos mercados financeiros têm emergido ao longo dos tempos obstáculos significativos para a tomada de risco. Como rentabilizam os bancos os seus balanços ou como conseguem as seguradoras ou gestoras de fundos de pensões cumprir as suas promessas de rendibilidade nos seus produtos? Poderiam, como seria natural, assumir mais riscos, investindo progressivamente em ativos com menor qualidade creditícia que oferecesse maior rendibilidade. Se é verdade que a política monetária aponta nessa direção, a atuação dos supervisores tem-se orientado em sentido inverso, desincentivando, mediante aumento de exigências de capital ou de valorização, posições mais agressivas a respeito do risco.

 

Entretanto, adicionalmente a constrangimentos regulamentares dissuasores de tomada de risco, surgem alterações estruturais no mercado como: o "trading" eletrónico, o surgimento de novos instrumentos de investimento como os ETF, que alteram regras de funcionamento dos mercados, deixando-os menos líquidos. Hoje em dia, os limites de tomada de risco na maioria das instituições financeiras são definidas com base em modelos muito reativos a medidas de volatilidade, que impõem travões a tomada de risco. A queda ou subida de 0,1% numa taxa de juro de 2% representa uma muito menor volatilidade que a mesma variação numa taxa de juro de 0,5%. Como, atualmente, vivemos num universo de taxas próximo de 0,5%, oscilações de mercado inofensivas no passado ganham dimensões desproporcionais.

 

Por outro lado, emergem dúvidas crescentes relativamente à capacidade de os bancos centrais fazerem magia e conseguirem reanimar a economia. Nos últimos tempos, a magia tem surgido do lado do dinamismo externo. Com efeitos secundários relevantes como a possibilidade de criação de bolhas de preços em ativos financeiros, as quais, os bancos centrais têm tentado controlar na sua vertente reguladora. Uma certeza podemos ter: enquanto não houver uma identificação clara da tendência da economia global, vai-se continuar a andar às apalpadelas, em movimentos de avanço e recuo que, na atual conjuntura de fragilidade dos mercados e cautela de tomada de riscos, pode significar uns quantos sustos nos mercados de capitais. Por estes dias, os mercados de capitais estão impróprios para cardíacos.

 

Economista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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