Cristina Casalinho
Cristina Casalinho 06 de setembro de 2018 às 22:15

Mais um artigo sobre a crise financeira mundial

A falência do banco norte-americano Lehman Bros a 15 de setembro de 2008 é frequentemente citada como marco do início da crise financeira global.

Embora tenha sido um elemento decisivo no desenrolar dos acontecimentos, não marca o seu início que remonta a 2007, quando o mercado se confrontou com tensões no mercado de crédito imobiliário (segmento subprime) nos EUA. As dificuldades no mercado de crédito estenderam-se ao mercado monetário interbancário. Como consequência, enquanto alguns fundos se defrontavam com a impossibilidade de refinanciamento de empréstimos de curto prazo, outros congelavam reembolsos por incapacidade de avaliação dos ativos. Num mundo em convulsão envolvido numa forte quebra de confiança, ocorreu a falência do Lehman Bros. Viveram-se quinze dias de anúncios de falências em catadupa seguidos por intervenções das autoridades no sistema financeiro mundial.

 

Por trás da crise de 2007/2008, encontram-se vários fatores: forte desregulamentação do setor financeiro, conduzindo ao florescimento de um vasto setor não regulado e fortemente alavancado; baixas taxas de juro num mercado muito competitivo, em que para compensar a compressão de margens os bancos optaram pelo acréscimo dos volumes de crédito; proliferação de produtos estruturados, com difícil identificação do risco efetivo associado; estagnação de rendimentos. Famílias e empresas recorreram ao crédito como ampliador de rendimento porquanto os bancos encontraram no seu incremento a saída para as dificuldades do modelo de negócio. Quando se provou que as premissas de avaliação da qualidade creditícia eram excessivamente otimistas, o edifício financeiro ruiu, arrastando a restante atividade económica. A desconfiança grassou: os bancos deixaram de emprestar entre si ou a empresas. As falências sucederam-se. Na iminência de uma crise económica mundial à escala da Grande Depressão de 1929, as autoridades mundiais conjugaram esforços e atuaram rapidamente no sentido de restaurar o mínimo de confiança no sistema financeiro. Os governos avançaram para o resgate de bancos e as autoridades monetárias injetaram doses massivas de liquidez. A confiança foi progressivamente restaurada.

 

Na sua génese, esta crise não foi diferente de outras. Excesso de endividamento ou política de concessão de crédito permissiva estão na base da crise bancária japonesa ou dos países nórdicos no início dos anos 1990. Os aspetos inéditos da crise de 2007/2008 foram a escala mundial, devido à globalização e a magnitude da dívida acumulada. Tanto é assim que as receitas adotadas não foram distintas do passado: repressão financeira (taxas de juro muito baixas por um período prolongado de tempo para assegurar o serviço da dívida).

 

A crise pode estar ultrapassada, mas alguns dos desequilíbrios originais persistem. O endividamento global, por exemplo, é superior ao observado em 2007. Se é indesmentível que, nas economias desenvolvidas, o endividamento do setor privado se reduziu, o stock de dívida pública cresceu (porém, a dívida pública detida pelos respetivos bancos centrais aponta para stocks líquidos significativamente menores). Por seu turno, os instrumentos de política económica encontram-se limitados na sua capacidade de ação. O espaço para novas descidas de taxas de juro a partir dos patamares atuais e a margem de manobra orçamental estão condicionados. Finalmente, uma das principais razões da crise, a estagnação de rendimentos, não se encontra debelada. O crescimento económico supera 2% e a taxa de desemprego regista mínimos históricos nas economias avançadas; não obstante, os rendimentos das famílias, designadamente do fator trabalho, permanecem estagnados. Muito embora as questões imediatas da crise tenham sido atendidas, algumas das suas raízes mais fundas perduram.

Economista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

 

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