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Cristina Casalinho 20 de Novembro de 2020 às 09:20

Novos negócios vs. velhos negócios

Dois setores ou negócios, que caracterizam o modelo económico ainda prevalecente, estão acossados, sendo obrigados a reinventar-se. Certamente o negócio bancário perderá para as fintechs, como o Grupo Ant, pelo menos parte do seu negócio.

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A automatização, a robotização, a digitalização, a nova revolução industrial, vão mudar os negócios. Recorrendo a dois líderes dessa mudança de referencial, o Grupo Ant, mais conhecido pela plataforma de serviços financeiros Alipay, e o produtor automóvel Tesla, podemos tentar antever como mercados e produtos se prepararam para ser revolucionados.

 

No caso da empresa Tesla, mais que a questão do automóvel elétrico, a aposta é num novo conceito de produto. Como um dos seus concorrentes próximos reconheceu recentemente, o desafio da indústria automóvel não reside na produção de baterias ou na redução da pegada ecológica, acontece ao nível da definição do que é um automóvel. Será sempre um veículo de transporte, mas poderá já não ser um "automóvel", começando pelo facto de não ser controlado/conduzido pelos tripulantes. Como aliás hoje, o telemóvel é um instrumento de comunicação, mas cada vez menos um telefone; havendo uma fusão crescente entre as funções do telemóvel e do automóvel - com um telemóvel, poder-se-á vir a conduzir um automóvel. Não estranhamente, em paralelo com o investimento na componente de motorização do veículo, os produtores estão a desenvolver importantes projetos de software, transfigurando as competências tradicionais desta indústria.

 

O Grupo Ant evoluiu de fornecedor de serviços de pagamentos à plataforma de comércio eletrónico Alibaba, para plataforma de serviços bancários online (em que os pagamentos representam apenas 1/3 das suas receitas). O crédito, que representa mais de um terço das receitas da empresa baseia-se num modelo em que o empréstimo (microcrédito), é solicitado pelos interessados através dos seus telemóveis na plataforma Alipay, recolhendo o financiamento correspondente de bancos locais. Por transações, a empresa cobra uma comissão de intermediação. A empresa apresenta-se como empresa tecnológica no negócio bancário. Contudo, os reguladores diferem na avaliação. Na véspera da conclusão da oferta pública inicial de ações, o regulador de mercados chinês interrompeu a operação, que seria a maior de sempre. A ação do regulador baseia-se no conceito que a empresa é primordialmente uma empresa financeira e depois tecnológica. Como tal, no início de novembro, passaram a obrigar empresas com o mesmo modelo de microcrédito eletrónico a financiar diretamente pelo menos 30% do empréstimo concedido (juntamente com os bancos). Em anteriores interações com os reguladores, Jack Ma havia-os acusado de antiquados.

 

Dois setores ou negócios, que caracterizam o modelo económico ainda prevalecente, estão acossados, sendo obrigados a reinventar-se. Certamente o negócio bancário perderá para as fintechs, como o Grupo Ant, pelo menos parte do seu negócio. Contudo, estas tendências não alteram uma questão fulcral associada a ambos os exemplos - aquela que preocupa os reguladores chineses: em que balanço deve residir o risco? As mudanças impõem novo tomador do risco?

 

No caso dos automóveis, no presente em caso de acidente, salvo raras exceções de erro de construção, o tomador do risco é o condutor/proprietário (coincidentemente, quem contrata a apólice de seguro). Num veículo automático, a culpa do acidente é do proprietário ou do construtor? E houver problemas na cloud e o carro não andar? Quem deve assegurar a continuidade do transporte? No caso dos microempréstimos online, o banco concede o empréstimo, intermediado, a um cliente da fintech, o risco pode ficar totalmente no seu balanço, mas o cliente é da fintech, assim como a análise de risco e a definição do preço final. Justifica-se, como o regulador chinês advoga, que parte do risco se mantenha em parte no balanço da fintech ou, via da regulação, está-se a minimizar as desvantagens competitivas dos bancos tradicionais? De quem é o risco? Do banco tradicional, quando empresta à fintech ou ao cliente desta, ou da fintech pelo empréstimo ao seu cliente, ou de ambos? Do construtor ou do proprietário do veículo? A gestão do risco irá definir o que são novos negócios ou apenas velhos negócios desenvolvidos em novos formatos.

 

Economista

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