Cristina Casalinho
Cristina Casalinho 08 de novembro de 2018 às 19:57

O fim de um ciclo de abertura e cooperação

Voltar a erguer barreiras comerciais está provado que não garante sucesso económico sustentável a longo prazo. A autarcia não assegura uma eficiente alocação de recursos.

Em outubro, o Fundo Monetário Internacional (FMI) reviu em baixa as projeções de crescimento para 2018 e 2019 em 0,2 pontos percentuais, invocando expansão económica mais desequilibrada e sinais que, em algumas economias, o ciclo estará próximo de inversão. Um dos principais fatores de risco apontados é de índole política: guerras comerciais, ressurgimento do protecionismo, o Brexit.

 

Após largo período de estreitamento de relações económicas, cooperação e abertura, o ar dos tempos revela um sentido distinto. O fechamento, a autarcia, o comportamento não cooperativo podem ser (esperemos), apenas, um movimento corretivo. Durante cerca de duas décadas de globalização, iniciadas iconicamente com a entrada da China para a Organização Mundial do Comércio em 2001, assistiu-se a um forte crescimento económico nas economias emergentes, induzindo forte redução da pobreza e emergência da classe média com poder de compra. Porém, nem todas as regiões do globo beneficiaram igualmente da intensificação do comércio mundial. Com efeito, esta deixou um rasto de perdedores e desiludidos.

 

Nos EUA ou na Europa, setores mais expostos à concorrência asiática sofreram com a entrada destes novos participantes no mercado. Outra possível consequência poderá ser a estagnação salarial numa fase de acentuado crescimento económico com robusta criação de emprego (neste caso, a digitalização também poderá desempenhar um papel). Adicionalmente, observa-se mais assimetria económica com um relativo encolhimento da classe média. A própria criação de emprego afigura-se enviesada para os extremos da pirâmide salarial. A estagnação de rendimentos, as parcas perspetivas de progressão profissional, a precariedade laboral, o esvaziamento relativo do miolo da sociedade, criam desconforto entre as populações, conduzindo a divisões e empurrando-as para soluções do passado ou mais heterodoxas. Pelos resultados dos atos eleitorais mais recentes nas economias desenvolvidas, esta inquietude sobre a capacidade de o atual modelo económico dar resposta às necessidades ou aspirações das populações reflete-se nas escolhas políticas, e vice-versa.

 

O tradicional modelo económico de sucesso baseia-se na abertura de mercados, remoção de barreiras à entrada e saída de participantes, investimento em educação e inovação, solidez das instituições, transparência e responsabilização - caminho no sentido de aumento da produtividade total dos fatores. Prevê-se igualmente a intervenção do Estado no caso de necessidade de correção de falhas de mercado. Voltar a erguer barreiras comerciais está provado que não garante sucesso económico sustentável a longo prazo. A autarcia não assegura uma eficiente alocação de recursos. Por outro lado, face ao reconhecido contínuo agravamento ou acumulação de desequilíbrios, o modelo atual no formato presente carece de adaptação. A busca de refundação do modelo não pode, porém, implicar um afastamento dos provados bons princípios. Avançou-se talvez demasiado na abertura, porque porventura não acautelaram suficientemente equilíbrios dentro de cada economia e entre economias. Não obstante, tal não deve significar o abandono das melhoras práticas, regras ou princípios, aplicados a todos (de forma mais ou menos idêntica).

 

Para o futuro, pode ser importante reconhecer que alguns excessos podem ter sido cometidos, como acontece em todas as fases de grande mudança, justificando-se ajustamentos. Porém, o passado nunca é um bom lugar de regresso (pode ser uma inspiração, contudo). A promoção de liberdade de circulação de bens, pessoas e capitais num ambiente de saudável e equilibrada concorrência deverá ser um caminho a seguir. Como sugestão: em termos de modelos alternativos, durante anos o modelo japonês foi seguido com admiração e fascínio, mas perdeu encanto com a crise dos anos 1990. O momento atual pode ser a oportunidade ideal para o revisitar no formato atual: na última década, o PIB "per capita" real japonês cresceu tanto quanto o dos EUA numa sociedade bem menos assimétrica.   

 

Economista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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