Cristina Casalinho
Cristina Casalinho 11 de agosto de 2016 às 21:05

O cromo mais desejado

Recentemente, o Financial Times dedicou vários artigos à problemática do crescimento económico nas economias desenvolvidas: crescimento modesto e perspetivas futuras pessimistas. Destaco o artigo de Martin Wolf.

O autor alinha vários argumentos para o reduzido crescimento económico nos EUA (contudo, superior ao registado na área do euro). A produtividade total dos fatores tem abrandado a par da desaceleração da inovação. O progresso tecnológico tem sido apropriado por menor número de agentes, implicando acréscimo da concentração de riqueza. Não se descreve uma visão rósea da expansão económica, embora se reconheça a capacidade de criação de emprego - sobretudo, em serviços. Esta criação de emprego em setores caracterizados por menos produtividade favorecem um congelamento das assimetrias de rendimento, podendo criar tensões sociais com implicações políticas. A campanha eleitoral nos EUA ou o referendo no Reino Unido são oferecidos como manifestações dessa realidade.

 

E porque é que se cresce pouco? Na maioria dos momentos de transição de modelo económico, assiste-se a alterações na geração e repartição de rendimento, podendo emergir falhas de mercado. Como na Revolução Industrial ou no processo de terceirização/liberalização do Reino Unido da década de 1980, os ganhos das novas tecnologias têm feito bastantes bilionários, mas o andamento dos rendimentos da restante população não configura apropriação dos acréscimos produtivos gerados. Por outro lado, a globalização proporcionou importantes ganhos (queda de custos e redução de pobreza nas economias desenvolvidas e emergentes, respetivamente) disseminados por muitos, embora mal identificados, e perdas de rendimento acentuadas e concentradas em poucos. Estas alterações refletem-se no mercado laboral e na perceção dos agentes sobre o futuro. Os jovens não têm nem parecem ansiar por um emprego para a vida, enquanto profissionais qualificados com idades compreendidas entre 40 e 50 anos enfrentam desemprego e inadequação de qualificações. O grande crescimento do emprego concentra-se nos serviços e/ou setores tecnologicamente intensivos, onde a produtividade tende a ser reduzida ou muito elevada, respetivamente, em linha com os salários praticados. Porém, mesmo nestes setores anunciam-se ventos de mudança. No setor financeiro, a palavra de ordem é: empresas financeiras tecnológicas. Progressivamente, serviços padronizados e rotineiros são dominados pela automação. Nos cuidados médicos, o peso da tecnologia e informação é crescente, prometendo ganhos de individualização total do tratamento e acompanhamento. Nas indústrias de informação e comunicação, alguns serviços são "comoditizados" porquanto outros aportam elevado valor.

 

Como a História Económica documenta, momentos de transição de modelo coincidem com períodos de elevada incerteza e perturbação social. As decisões políticas ganham maior acuidade, sendo cruciais para assegurar que a transformação se processa suavemente de molde a garantir o máximo crescimento potencial. Um exemplo tradicional da centralidade das decisões políticas em períodos de salto de paradigma é o estudo comparado entre Argentina e Austrália. No início do séc. XX, os dois países observavam estruturas económicas e de rendimento idênticas; no entanto, devido, em grande parte, à diferença de opções políticas, a Argentina enredou-se num modelo de baixo crescimento ao passo que a Austrália se encontra no grupo das economias mais dinâmicas. Hoje, como na Revolução Industrial, importa não ceder à tentação do regresso ao paraíso económico perdido ou ao imobilismo, justificando-se avanços numa apropriação mais equilibrada de ganhos gerados. Pode-se estar defronte de uma nova economia com promessa de crescimento mais acelerado, como se rotulou precocemente o início da década de 2000, com a proliferação de novas tecnologias informáticas e de comunicação. A libertação deste potencial depende do desenho de novos modelos de organização da produção e contratualização do trabalho, formas inovadoras de distribuição de rendimento e geração de novas ideias produtivas e não só.

Economista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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