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Cristina Casalinho - Economista 11 de Outubro de 2015 às 19:20

Pensar fora da caixa, p.f.

Na semana em que o Fundo Monetário Internacional divulgou previsões de modesto crescimento económico mundial, Larry Summers(1) publicou no Financial Times um artigo dedicado ao fraco crescimento económico e à necessidade de impulsionar a procura.

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Coincidem no diagnóstico de existência de excesso de oferta o qual deverá ser acomodado através de aumento da procura. Advoga-se, então, a manutenção de baixas taxas de juro.

 

Larry Summers vai mais longe. Defende a necessidade de adoção de políticas orçamentais expansionistas, argumentando que os instrumentos de política monetária estão esgotados. Com efeito, sociedades fortemente endividadas apresentam-se menos permeáveis aos estímulos monetários, porque o espaço para novo endividamento é reduzido. O acréscimo potencial do financiamento tende a favorecer os melhores créditos, em particular em fases de abrandamento económico, os quais, tradicionalmente, têm menos propensão a utilizá-lo. Não obstante, a política monetária acomodatícia tem efeitos relevantes além do embaratecimento dos empréstimos, designadamente na Europa. Concretamente, permite evitar uma acentuada apreciação do euro, num contexto generalizado de expansão monetária, mitigando perdas de competitividade; e, facilita o serviço da dívida, minimizando situações de incumprimento. As reduzidas taxas de juro proporcionam ainda margem de manobra orçamental. Como Larry Summers invoca, os limites de dívida de 60% do PIB e do défice de 3% vertidos para o Tratado Orçamental assentam em hipóteses de crescimento nominal de 5% e taxas de juro da mesma magnitude. Num ambiente de taxas de juro e crescimento nominal de 1,5%, a um nível de dívida de 60% corresponde uma fatura de juros de 0,9%, configurando uma folga de 2,1 p.p. do PIB para défice primário, considerando o limite de 3% (embora com implicações ao nível do aumento do "stock" de dívida).

 

Para este professor de economia, importa combater tempestivamente a estagnação secular, sob pena de o mundo desenvolvido sucumbir a uma letargia económica semelhante à japonesa. Estagnação secular significa uma combinação de crescimento lento, baixa inflação e taxas de juro próximas de zero. Resulta de um conjunto de quatro fatores: aumento na assimetria de rendimentos que promove a propensão a poupar; baixa produtividade e lento crescimento da participação na força de trabalho; acrescida fricção na intermediação financeira; e, redução do preço dos bens de capital e da necessidade de capital para operar um negócio (por exemplo: o impacto da digitalização). É consensual que estes elementos desincentivam o investimento e que, uma vez que o poder de fogo da política monetária se encontra constrangido, a política orçamental dedicada a investimento e manutenção pode justificar-se, sobretudo em economias desenvolvidas carenciadas de renovação de infraestruturas. Porém, porquê diabolizar a estagnação secular?

 

Tomando o exemplo japonês, as autoridades têm conduzido políticas monetárias fortemente acomodatícias, os défices orçamentais rondam 7% do PIB e a dívida pública ultrapassa 250% do PIB. Contudo, os estímulos não parecem reanimar a atividade económica (pode-se argumentar que se nada tivesse sido feito, o Japão estaria pior), entrincheirada num equilíbrio estável. Justifica-se imprimir estímulos adicionais para que os japoneses comprem mais bens ou serviços? O consumo privado e o nível de investimento (20% do PIB) são idênticos a outras economias avançadas. O desemprego situa-se em 3,5% e o rendimento "per capita" é dos mais elevados do mundo, embora em declínio. Nos últimos anos, o desequilíbrio externo tem-se reduzido pelo aumento das importações, pelo que a dependência da procura externa tem abrandado.

 

Porque é que é mau a economia mundial crescer apenas 3% em termos reais? É certamente negativo no caso de elevado desemprego ou quando o rendimento da sociedade é baixo e as necessidades básicas não estão asseguradas. Justifica-se esperar que as economias desenvolvidas ambicionem ritmos acelerados de expansão económica, além dos ditados por evolução tecnológica ou aumento de recursos? Será que o excesso de oferta não decorre de uma inadequação entre oferta e procura? As sociedades desenvolvidas buscam mais serviços e/ou bens com características únicas, personalizados, e sustentáveis em vez de produtos indistintos, massificados. Por outro lado, qual a garantia que políticas expansionistas fiscais terão efeitos mais significativos do que no Japão? As condições originais constroem um caso mais favorável para os EUA do que para a Europa. E porque é que, em vez de políticas fiscais ou monetárias, não se promovem incentivos no sentido de remover os quatro fatores associados à estagnação secular? É, seguramente, de execução significativamente mais difícil. Não obstante, políticas dirigidas à redução de assimetria de rendimento, ao fomento de igualdade de género, aumentando a taxa de participação na força de trabalho, e/ou à diminuição de custos de intermediação financeira não poderão ser mais eficazes e eficientes na promoção do desiderato desejado? Se as receitas antigas não estão, aparentemente, a funcionar, porque não testar novas formas de atuação, embora reconhecendo os naturais obstáculos de efetuação? Em vez de concentrar esforços nas políticas, dirigir mais atenção ao funcionamento das instituições e incentivos? Como ilustração, segundo a consultora McKinsey, se o diferencial de género em termos de participação no mercado de trabalho e horas trabalhadas fosse eliminado, a economia mundial seria 26% mais rica.

 

(1)Larry Summers é professor universitário e antigo Secretário de Estado do Tesouro dos EUA.

 

Economista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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