Cristina Casalinho
Cristina Casalinho 02 de maio de 2019 às 20:20

Por enquanto: copo meio cheio

O passado sugere que, com mais ou menos tempo e custos, se soube sempre encontrar um ponto de chegada, prosseguindo uma solução inclusiva e partilhada, melhor que a situação de partida.

Crescentemente, emergem sinais que sugerem que o modo de vida ocidental está em profunda alteração. A digitalização, robotização, a disseminação do uso de inteligência artificial, a nanotecnologia, a biotecnologia, as mudanças climáticas, a mudança dos modelos económicos, a assimetria de informação e de rendimentos, as alterações nos modelos políticos apontam para um admirável mundo novo. Se, presentemente, os sinais parecem ser dominados por nuvens sombrias na medida em que a proliferação da infotecnologia prenuncia mudanças radicais no modo de produção e na tomada de decisão, arriscando deixar significativas camadas da população global órfãs do processo, existe espaço para confiança.

É difícil inventariar as profissões ou indústrias do futuro. Porém, dispõe-se de algumas pistas: máquinas, saúde, entretenimento e cultura, educação, cuidados na velhice ou na infância, serão atividades ou campos a carecer de intervenção humana de alguma magnitude.

 

As atitudes relativas à produção, distribuição e comércio estão a mudar e continuarão a alterar-se pela necessidade de assegurar a sustentabilidade do crescimento económico e pelo perfil de preferências dos novos consumidores. A valorização da fruição face à posse e a consciência do impacto global das escolhas individuais prometem abalar alguns modelos de negócio. Da mesma forma que a indústria automóvel avançou para a integração da componente de crédito ao consumo através de criação de instituições de crédito intra-grupo; no futuro, a propriedade do automóvel poderá deixar de se justificar, existindo um sistema partilhado do serviço, eventualmente fornecido por um construtor de veículos.

 

Hoje, a Amazon ou a Alibaba agitam o modelo de comércio tradicional, concentrando, pelo caminho, doses massivas de informação sobre os clientes. Num futuro não muito longínquo, a plataforma não será somente de compra, sendo uma plataforma dispensadora ou facilitadora de serviços/experiências - alugam-se carros ou livros ou malas ou encontram-se pessoas. Não será muito difícil imaginar que o atual modelo de negócio da Amazon poderá vir a conter, para além do tradicional negócio, o fornecimento de serviços presentemente assegurados por outras plataformas como Ebay, Facebook, Netflix, companhia de telecomunicações, banco, ou médico assistente. Viver-se-á num mundo simples de balcão único ou "click" único. Esta antevisão é atraente pela óbvia conveniência (capacidade ampliada de satisfação de necessidades por acréscimo de capacidade de acerto na venda) e otimização de recursos. As referidas razões de eficiência económica apontam para que o modelo de organização da sociedade dominante associado a este modelo económico seja baseado em cidades, embora se possa contra-argumentar que porque se pode aceder à rede de qualquer ponto do globo e porque os drones chegam a todo o lado, existem condições favoráveis à ocupação mais extensiva no território.

 

Indiferentemente ao modelo económico, de organização da sociedade e de ocupação espacial, apesar da especificidade dos riscos atuais, a História ensina que excessiva concentração de poder numa única entidade tende a não ser longeva. Os novos desafios tecnológicos podem-se constituir em desafios civilizacionais, pois uma parte da população pode tornar-se obsoleta ou irrelevante; contudo, não se pode buscar refúgio no modelo passado, o qual já está ultrapassado. Ninguém fica na mesma cidade, no mesmo emprego, com as mesmas valências, durante toda vida. As populações saíram da ruralidade para o trabalho urbano, industrial ou serviços com a Revolução Industrial e agora (os elementos capacitados) saem de uma cidade para um qualquer outro local do mundo.

 

Circulação e cosmopolitismo favorecem a formação de consensos em torno da necessidade da tomada de decisões globais relativas à sustentabilidade do planeta, promovendo modos de produção mais responsáveis, numa atitude mais vigilante de tentativas de domínio desproporcionado de poder e meios. Os desafios atuais não se prendem sobretudo com o facto de a revolução tecnológica colocar em risco de irrelevância económica uma parte significativa da população - o que deveras importa é a resposta ou solução encontrada para os desequilíbrios que a fase de transição encerra. O passado sugere que, com mais ou menos tempo e custos, se soube sempre encontrar um ponto de chegada, prosseguindo uma solução inclusiva e partilhada, melhor que a situação de partida.

 

Economista

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