Cristina Casalinho
Cristina Casalinho 31 de janeiro de 2013 às 23:30

Prova de vida

Sem investimento destinado a ampliar exportações e/ou substituir importações, será difícil acreditar na reanimação do crescimento, do rendimento e do consumo interno. E sem confiança no futuro, não emergirá investimento

Nos últimos quinze anos, o consumo privado português superou 60% do PIB, colocando-se 10 pontos percentuais (p.p.) acima da média europeia. O investimento, em forte contracção, em décadas sucessivas, apresentou valores superiores à média europeia em 5 p.p. do PIB. A forte expansão da procura doméstica, maioritariamente ancorada em crédito externo, foi satisfeita por oferta europeia, materializando-se em incremento de importações. O acréscimo da procura interna pouco serviu para promoção do produto e rendimento internos. Interrompida a relação financeira, a procura doméstica soçobrou.

A reposição do equilíbrio processa-se em duas fases: um período de transição caracterizado por forte contracção de consumo e importações, lidando com a restrição financeira; um segundo momento-chave em que se constroem as bases para o crescimento sustentável ancorado em novos factores de dinamismo. Aproximamo-nos do final da primeira fase, encaminhando-nos para o teste ao sucesso do ajustamento.

Esse êxito dependerá da recusa do antigo modelo de crescimento via crédito, consumo e investimento em bens não transaccionáveis (e.g. serviços) com baixa rendibilidade. Relembre-se que o retorno a este modelo está quase interditado pelas novas regras europeias de controlo de desequilíbrios e pelas restrições no acesso a financiamento. Aguarda-se pelo ressurgimento do investimento, agora em actividades transaccionáveis, como agricultura, extracção, manufacturas ou turismo, empurrando uma segunda onda de exportações, alicerçada em aumento de capacidade produtiva e criação de emprego e não apenas por reorientação da produção existente para mercados alternativos. Acerca-se a prova dos nove do ajustamento: o teste à capacidade de mobilização de investimento interno e atracção de fundos externos.

A presente hora afigura-se negra. O desemprego disparou, arriscando-se a permanecer superior à média histórica durante um período prolongado. Os sectores em declínio destroem emprego mais rapidamente que os novos sectores criam, sendo os últimos mais capital-intensivos que os primeiros. As falências abundam. A emigração regressa.

Apesar da dureza da prova a que a economia está submetida, existem sinais inspiradores: o sector privado entendeu o desafio. Do lado das empresas: buscam-se mercados fora da Europa, onde, contudo, se enfrentam mais riscos (como cambial e de crédito), para onde é mais caro exportar, onde as barreiras à entrada são mais altas. Reequaciona-se a oferta, adoptam-se novas práticas de entrada em economias protegidas. Ganha-se quota de mercado em mercados de nicho. A despeito da compressão de margens, as empresas reinventam-se. Porém, para suportar o ímpeto exportador, os exemplos de sucessos têm de ser replicados a velocidade crescente. Surge, doravante, a indispensabilidade de investimento.

Do lado das famílias, o aumento da poupança privada, um traço distintivo do ajustamento português relativamente a outras economias sob intervenção; ilustra a clara identificação da natureza da crise e das suas implicações em termos de rendimento permanente. Noutra vertente, a discussão sobre a reforma do Estado parece ter tido a grande vantagem de tornar evidente que não se pode ter o mesmo sistema de repartição da Segurança Social quando se tem 5 contribuintes por cada beneficiário, como nos anos 80, ou quando o rácio cai para 3, como no presente. As pessoas voltaram a emigrar ou a arrendar casa. Deixaram de trocar automóvel ou de telemóvel com a mesma ligeireza.

O sector privado tem surpreendido pela flexibilidade, percepção holística dos desafios, pró-actividade e adaptabilidade às novas condições. A Europa está a ajudar com a remoção dos riscos de catástrofe, designadamente de implosão do euro, e a melhorar as condições financeiras. Falta a prova de vida do investimento. Sem investimento destinado a ampliar exportações e/ou substituir importações, será difícil acreditar na reanimação do crescimento, do rendimento e do consumo interno. E sem confiança no futuro, não emergirá investimento.

Economista


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