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Cristina Casalinho 30 de Dezembro de 2019 às 19:08

Taxas negativas entre nós

Taxas de juro negativas são uma realidade em várias economias desenvolvidas. Embora populares entre as autoridades monetárias da área do euro, Suíça, Suécia, Dinamarca ou Japão, nos EUA e Reino Unido os bancos centrais têm-se retraído de recorrer a este instrumento.

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A longevidade de utilização de um instrumento de política, inicialmente considerada temporária, tem vindo a suscitar questões sobre as vantagens da sua prolongada existência.

 

O surgimento de taxas de juro negativas é explicado pela necessidade de promoção de estímulo adicional da economia, promovendo mais procura por via de maior investimento, maior consumo e mais exportações. Uma taxa de juro negativa implica um custo de financiamento mais reduzido, impulsionando investimento. Penaliza a poupança, impelindo o consumo ou o investimento habitacional. Promove uma depreciação relativa da moeda e os ganhos de competitividade acrescidos favorecem a aceleração das exportações. Este é um argumento que justifica a exortação do Presidente Trump à Reserva Federal de redução de taxas de juro sempre que o BCE reitera a sua linha orientadora. A necessidade de taxas de juro muito baixas é ainda explicada pelo elevado endividamento nas economias desenvolvidas, o qual globalmente não se reduziu desde a crise financeira. Sem inflação relevante e crescimento económico real modesto, o serviço da dívida apenas poderá ser assegurado se as taxas de juro persistirem em patamares muito reduzidos. A dívida será sustentável somente na medida em que empresas, famílias e Estados consigam gerar resultados/rendimentos capazes de suportar os encargos financeiros assumidos.

 

Ao longo de 2019, apesar do reconhecimento da necessidade de taxas de juros baixas para promoção do processo de desalavancagem ou, pelo menos, evitar uma nova crise, elevou-se o coro de vozes ecoando reservas relativamente a taxas de juro negativas. Com efeito, as taxas de juro negativas implicam alterações significativas no custo relativo entre poupança e consumo/investimento e colocam desafios importantes nos modelos de negócio da indústria financeira. Poderão ter ainda consequências adversas em termos de produtividade da economia na medida em que poderão favorecer o prolongamento da vida de empresas não rentáveis. Neste sentido, alguns críticos das taxas de juro negativas têm manifestado preocupação com os incentivos ao adiamento de reformas ou manutenção de modelos económicos ancilosados, penalizando a expansão económica a prazo.

 

As taxas de juro negativas alteram fundamentalmente a lógica intertemporal ou intergeracional do binómio poupança-consumo, invertendo a premissa original, no sentido de privilegiar consumo presente face ao futuro. Ao contrário da lógica tradicional, o consumo presente recebe agora um prémio face ao futuro - pondo desafios às decisões de poupança e investimento bem como às suas indústrias. A rendibilidade do setor bancário é afetada, induzindo mudanças no modelo de negócio, no sentido de busca de atividades geradoras de comissões e de negociação como compensação de perda de rendimento de atividades geradoras de margem financeira. Existe ainda evidência de maior dependência de depósitos face a financiamento de curto prazo, bem como declínio do rácio de capital e de provisões para perdas potenciais na carteira de crédito, havendo risco de contínuas reestruturações de empréstimos. No que se refere a seguradoras e fundos de pensões, o impacto das baixas taxas de juro tende a ser mitigado por via de aumento de reservas, incremento de prémios e/ou contribuições para pensões. Simultaneamente, alteram as suas políticas de investimento no sentido de maior aceitação de risco mediante maior alocação de fundos a ações, dívida corporativa e/ou com notação financeira mais baixa e prazos mais longos, investimentos alternativos como imobiliário. As poupanças, genericamente, também se afastam de produtos mais tradicionais e menos arriscados como depósitos bancários para se direcionarem para imobiliário, ações, matérias-primas,… provocando valorizações recorde. Consequentemente, muito embora não se observe inflação no consumidor ou no produtor, assiste-se a uma subida sustentada de preços nos mercados financeiros ou imobiliários.

 

Um período prolongado de taxas de juro negativas provoca consequências indesejáveis como: erosão da margem financeira nas instituições financeiras, incentivos a maior tomada de risco e inflação de preço dos ativos financeiros. Por outro lado, nas economias mais envelhecidas, a quebra na remuneração da poupança poderá conduzir ao aumento da poupança em vez da desejada queda por via de acréscimo do consumo. Os bancos, por seu turno, em vez de estender créditos a novas empresas e projetos, podem ceder à tentação de continuar a manter créditos a empresas ineficientes e, deste modo, dificultando a desejada desalavancagem e renovação do crédito à economia, com potencial efeito sobre produtividade e crescimento.

 

O impacto indesejável das taxas de juro negativas parece bem documentado e geralmente reconhecido; não obstante, como o Banco Central sueco reconheceu este mês no anúncio da decisão de regresso de taxas zero, o eventual abandono de taxas de juro negativas não significa o fim das baixas taxas de juro. A elevada montanha de dívida global conjugada com expansão económica real modesta e baixa inflação exige a manutenção de política monetária expansionista, sob o risco de subidas temerárias de taxas de juro poderem fazer a economia mundial sucumbir a nova crise.

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Economista

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