Cristina Casalinho
Cristina Casalinho 22 de novembro de 2019 às 10:10

Tudo ao molho ou a economia circular

Serão os veículos elétricos efetivamente menos poluentes que os de combustão interna? E quais os fatores considerados na análise? Por exemplo, aparentemente ainda não existe solução ideal para tratamento de baterias em fim de vida.

As alterações climáticas são crescentemente visíveis, tendo-se a sua evidência avolumado recentemente. Esta realidade não impede que os esforços para cumprimento do objetivo de manutenção do aquecimento global abaixo dos dois graus Celsius sejam limitados. Com efeito, a informação disponível aponta para o crescimento da produção de combustíveis fósseis acima do que seria necessário para atingir as metas do Acordo de Paris. Ainda recentemente, foi noticiado que a China está a construir ou iniciará construção de novas centrais elétricas a carvão, equivalendo a capacidade adicional de produção à totalidade da produção europeia atual(1) numa estratégia de promoção de aceleração do crescimento económico. O exemplo chinês não é, contudo, um caso isolado. A Índia projeta triplicar a produção elétrica assente em carvão até 2040 e as economias desenvolvidas não cumprem na íntegra os compromissos assumidos em Paris ou em Quioto.

 

Estatísticas relativas à expansão económica casam quase perfeitamente com os dados referentes ao aquecimento global, sugerindo a possibilidade de correlação entre as duas realidades. A decisão de algumas economias em desenvolvimento de privilegiar formas energéticas mais acessíveis e baratas como elemento integrante do seu processo de crescimento económico não deveria constituir surpresa - constituindo argumento para atraso no cumprimento de metas ambientais. Reclamam soberania sobre o seu modelo de desenvolvimento económico, invocando o facto de as economias desenvolvidas terem adotado o mesmo modelo energético com a diferença de séculos. Justifica-se apelar à escolha entre menor rendimento e melhor qualidade de vida global para populações em países de baixo/médio rendimento quando as economias mais desenvolvidas são ainda, tendencialmente, mais poluentes? Compensam-se pela escolha altruísta/egoísta? Qual a escolha dos eleitores desses países?

 

O facto de apenas alguns países contribuírem para o esforço de cumprimento das metas de aquecimento não assegura a obtenção dos resultados desejados. Pode, no entanto, ser importante conhecer como alguns países atingem as metas. Na Europa, países como a Alemanha ou Holanda são muito dependentes do carvão enquanto países como França, Espanha ou Bélgica observam baixa dependência do carvão. Este resultado é obtido com base numa componente nuclear importante. França é o exemplo mais claro: 82% da energia não tem origem no carvão, mas o contributo renovável é apenas 24% (o peso da energia nuclear corresponde quase ao dobro do todas as restantes fontes). Embora de forma menos acentuada, este é um padrão registado através do continente europeu - menos carvão tende a significar mais nuclear.

 

As emissões de gases de efeito estufa estão igualmente relacionadas com o modelo de transporte dominante. A discussão parece concentrar-se no binómio veículos de combustão interna e elétricos. Serão os veículos elétricos efetivamente menos poluentes que os de combustão interna? E quais os fatores considerados na análise? Por exemplo, aparentemente ainda não existe solução ideal para tratamento de baterias em fim de vida, levantando questões de poluição relevantes. E a fonte de energia elétrica não pondera? O que é mais poluente um carro a gasolina ou um veículo elétrico com eletricidade produzida numa central a carvão? Certamente, mais sustentável que o automóvel individual será a opção pelo transporte coletivo ou partilhado; mas qual a sua disponibilidade? Qual o tarifário dos transportes públicos? Qual a modalidade do seu financiamento? Transporte público ou coletivo? A escolha do transporte coletivo ou público passa igualmente por uma alteração na valorização da experiência de consumo. A posse de automóvel próprio representa claramente mais que o serviço de transporte que proporciona.

 

O combate (ou não) das alterações climáticas pode constituir um fator adicional de desigualdade. Uma conhecida personalidade internacional defensora dos princípios de sustentabilidade foi acusada de falta de sensibilidade social pela promoção de produtos sustentáveis inacessíveis à carteira média dos seus seguidores. Como tornar a escolha de produtos sustentáveis acessível a todos? Subsidiam-se uns e/ou taxam-se outros? Como se garante que existe escolha para o maior leque possível de rendimentos? Produtos sustentáveis são correntemente comercializados com um rótulo implícito ou explícito de produto exclusivo e preço condizente. Como assegurar agricultura sustentável (e.g. não erosão dos solos) e a produção de bens alimentares para populações em expansão, em número e rendimento? Como combater a obesidade nas sociedades desenvolvidas? Porque é que algumas sociedades ganham peso quando o rendimento aumenta e outras não? Como se evita o desperdício alimentar? Como privilegiar dietas tradicionais conotadas com períodos de dureza económica? E eliminar o preconceito cultural de excesso alimentar/excesso de peso identificado com sucesso? E como votam as populações? E como impacta a demografia nos resultados eleitorais?

 

(1)PIB nominal da China de USD 14,2 biliões vs PIB nominal da União Europeia de USD 18,7 biliões (estimativa de 2018) ou USD 20,8 biliões dos EUA.

 

Economista
pub

Marketing Automation certified by E-GOI