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Cristina Casalinho 10 de Março de 2016 às 21:25

Xeque aos mágicos

Os maiores fatores de incerteza do momento encontram-se na crise dos refugiados ou na possibilidade de o Reino Unido sair da UE - em resumo, na necessidade de a Europa se voltar a sentir confortável na sua pele. Para o gigantismo dos desafios atuais, o poder da magia dos banqueiros centrais pode não ser suficiente.

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O Banco Central Europeu (BCE) voltou a baixar taxas de juro. A taxa de depósitos desce de -30 pontos base (pb) para -40 pb. Adicionalmente, o programa de compras de dívida pública é aumentado de 60 mil milhões para 80 mil milhões, sendo o programa de aquisição de ativos estendido a dívida de empresas com classificação de risco de crédito de investimento. Em paralelo, foi lançado um novo programa de cedência de liquidez de longo prazo com vista a promover a aceleração da concessão de crédito à economia.

 

A marca de sucesso da política monetária prosseguida pelo BCE é a manutenção do euro relativamente enfraquecido face ao dólar, permitindo deste modo a dinamização do crescimento económico por via do estímulo exportador. Relativamente ao impulso ao crédito, a descida de taxas de juro não tem sido particularmente eficaz. Este resultado não será particularmente surpreendente, na medida em que as projeções de investimento se mantêm contidas, as perspetivas de crescimento económico são modestas, e o endividamento das empresas permanece elevado.

 

Com a extensão do programa de aquisição de ativos à dívida de empresas não-financeiras, o BCE pretende reativar o crédito às empresas, evitando o sistema bancário. Visa reduzir a dependência do crédito bancário. A esta tentativa subjaz o argumento de que serão os bancos que funcionarão como travão do investimento, sendo necessário desbloquear o acesso ao financiamento pelo setor privado mediante novos instrumentos.

 

A razoabilidade da decisão do BCE é inequívoca; contudo, apesar da surpresa pela dimensão do aumento do programa de compras e pela inclusão da dívida de empresas, a reação do mercado foi tímida. Cresce o ceticismo relativamente à capacidade de os bancos centrais reativarem o dinamismo económico. Chovem artigos dedicados às limitações associadas à atuação dos bancos centrais. As ferramentas existentes estariam esgotadas, revelando-se incapazes de produzirem efeitos reais e apelando à inovação. Por exemplo, distribuição de cheques de compras à população com reduzida validade. Com efeito, existe excesso de liquidez no mercado de capitais, sem canalização para a economia real, e a indústria financeira, confrontada com taxas de juro negativas, encontra-se desafiada nos seus princípios básicos. O Banco de Pagamentos Internacionais, uma organização internacional com pergaminhos na identificação de crises, alertou recentemente para o facto de as taxas de juro negativas porem em perigo o sistema financeiro, eliminando eventuais benefícios de curto prazo ao nível da dinâmica económica. Como pode um fundo de pensões alemão garantir a rendibilidade de uma carteira de suporte ao pagamento de pensões se paga juros, em vez de receber, em títulos até dez anos? Muitos sistemas de valorização de ativos não previam a possibilidade de taxas de juro negativas. A existência de um prémio negativo por poupar é uma distorção mental em termos de incentivo ao consumo presente que a folga produtiva e o desespero para a remediar explicam.

 

Nas economias avançadas, o crescimento económico é anémico, o endividamento é elevado, a produtividade encontra-se estagnada. Os instrumentos de política económica: taxas de juro, taxas de câmbio e orçamentos estão relativamente exaustos. Esta decisão do BCE, ou antes do Banco do Japão ou do Banco Nacional da Suíça, pode ser descrita como uma medida extrema em tempos difíceis. Porém, os atores nos mercados financeiros estão crescentemente céticos da magia dos bancos centrais. Estas decisões são o reconhecimento público de que a crise se vai prolongar e do esgotamento do modelo económico (e, sobretudo, dos tradicionais instrumentos de política). No caso da Europa, além da questão da aparente limitada capacidade de promoção de estímulos económicos incontestáveis, desponta alguma ambiguidade de sinais: por exemplo, política monetária e regulação financeira em contracorrente. Porém, os maiores fatores de incerteza do momento encontram-se na crise dos refugiados ou na possibilidade de o Reino Unido sair da UE - em resumo, na necessidade de a Europa se voltar a sentir confortável na sua pele. Para o gigantismo dos desafios atuais, o poder da magia dos banqueiros centrais pode não ser suficiente.

 

Economista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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