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António José Teixeira 24 de Fevereiro de 2017 às 13:00

Folha de assentos

Há novos planetas, mas muito longe. Não saberemos perceber quanto. No nosso, perdem-se (alguns ganham) milhares de milhões sem notícia. Avarias na desordem internacional, decerto. Resiste-se na escuridão. Sempre à procura de luz.

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fisco. Na Roma imperial, o fisco representava a parte da riqueza do Estado destinada à manutenção do príncipe. Os príncipes de hoje são outros e o pecúlio arrecadado aos contribuintes confunde-se com a máquina que o executa. O fisco português nunca terá sido tão poderoso como nos últimos anos. Esta semana, o Público revelou que a Autoridade Tributária e Aduaneira deixou sair de Portugal, sem qualquer controlo, cerca de 10 mil milhões de euros para offshores. As transferências realizaram-se entre 2011 e 2014. Foram declaradas pelos bancos, como manda a lei, mas não foram publicadas no Portal das Finanças, como acontecia até aí. Pior, não foram objecto de qualquer fiscalização. Estes 10 mil milhões referem-se apenas a 20 declarações comunicadas ao fisco e que o fisco ignorou. Num tempo de grande austeridade, pensar que tamanha circulação de capitais passa incólume dá que pensar. E deve dar que responsabilizar.

pós-ocidental. Estamos numa circunstância em que se proclamam novos tempos: a "pós-verdade", o "pós-político"… Vivemos uma transição para algo ainda inominável. Não sabemos o quê. Por exemplo, a Rússia não gosta da (des)ordem internacional e propõe "uma nova ordem mundial pós-ocidental". O pêndulo não pára e os interesses e as vontades também. Não sabemos que ordem pós-ocidental será esta. Nem sabemos o que quer a Rússia. Sabemos que fala de "pragmatismo", o que quer que seja. As contradições sempre foram muitas, como difíceis os compromissos. Faltando ideais e sobrando força, não sei se o acenado pragmatismo é suficiente para mobilizar alguém. A irracionalidade é demasiada para poder ser domada. Por enquanto, o "pós-ocidental" não passa de retórica, mesmo sendo certo que este lado do mundo está decadente. 

resistir. É a palavra de ordem que marcou o primeiro mês de presidência de Donald Trump. Dia a dia, nos mais diversos campos, a sociedade americana organiza-se para contrariar as políticas do Presidente. Petições, recursos, marchas, expedientes parlamentares, dissidências, boicotes comerciais, segregação de informação classificada, tudo tem servido para resistir a Donald Trump. É desconcertante um presidente queixar-se dos serviços secretos, desacreditar a justiça, insultar os media, tomar partido pelos interesses comerciais da família, inventar atentados terroristas, defender a tortura, ofender países, desligar o telefone a um primeiro-ministro, cometer gafes diariamente… Seria hilariante se não fosse trágico. A boa notícia é que, por enquanto, as instituições têm respondido aos atropelos e os cidadãos têm estado vigilantes. Basta ver a resposta dos tribunais e a mobilização na defesa da imigração. Mas não nos iludamos, há muitos americanos que se reconhecem em Trump e o seu poder é grande. Resistir é preciso. Em nome do estado de direito, da liberdade e da decência.

escuridão. "A democracia morre na escuridão." O original americano talvez seja mais forte: "Democracy dies in darkness." É o novo lema do Washington Post. Mais um exemplo de resistência ao acosso de Trump e seus apaniguados. Os media têm sido um alvo preferencial e nas redacções está mais viva a convicção de que o jornalismo livre e qualificado tem uma responsabilidade insubstituível. Há poucas semanas, Martin Baron, o director do jornal que revelou o Watergate e levou à demissão de Nixon, prometeu expor Donald Trump sempre que ele mentir. E, como ele mente muito, procura-se luz na escuridão. Por isso, não admira que, nos últimos meses, tenham aumentado significativamente as assinaturas dos principais jornais americanos. 

auditoria. A história é simples e sintomática. Em Junho do ano passado, Belém anunciou uma auditoria às contas da Presidência da República. Uma fonte oficial confirmou-a ao DN e o Presidente, confrontado pelos jornalistas, não a desmentiu; pelo contrário, alimentou a ideia. O jornalista António Granado perguntou pela auditoria à Presidência. Depois de vários pedidos e uma queixa, Belém mandou dizer que não tinha havido uma auditoria, mas apenas uma "análise", que também se desconhece. Tão alimentada e noticiada foi a auditoria que nem foi preciso fazê-la. Afinal, o efeito foi criado e propagado, a preocupação e o rigor presidencial sublinhados, para quê a maçada de, porventura, incomodar o antecessor de Marcelo…

terras. Grande descoberta da semana é a observação de sete planetas fora do nosso sistema solar. São exoplanetas semelhantes à Terra e que circulam à volta de uma estrela. Pensa-se que parte deles sejam de natureza rochosa e que alguns tenham oceanos à superfície. Especula-se sobre a possibilidade de existência de vida e já há quem se imagine a viajar… As sete Terras ficam a 39 anos-luz e parecem indiciar semelhanças entre os vários sistemas solares dentro da Via Láctea. Aí ficam uma espécie de irmãos gémeos, que vão dando forma e substância a uma astronomia ainda limitada. O mérito desta descoberta é de uma equipa internacional da NASA, liderada por um belga e que inclui uma investigadora portuguesa. Chama-se Catarina Fernandes e trabalha na Universidade de Liège. Desvendam-se mistérios do Universo ao mesmo tempo que se alarga a frente de procura.


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