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Opinião
Manuel Falcão 07 de Abril de 2017 às 10:07

A esquina do Rio

É uma coincidência notável que na mesma semana estreie o filme sobre Paula Rego e seja editada uma nova pérola do arquivo de Amália Rodrigues, desta vez sobre a sua carreira em Itália.

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Deixar ao Governo a incumbência de proteger a nossa privacidade é como contratar um mirone para instalar persianas em casa.
John Perry Barlow

Memórias
É uma coincidência notável que na mesma semana estreie o filme sobre Paula Rego e seja editada uma nova pérola do arquivo de Amália Rodrigues, desta vez sobre a sua carreira em Itália. A partir de pontos de partida e de carreiras artísticas completamente diferentes, estas duas mulheres são exemplos da criatividade portuguesa para um mundo que nos achava desinteressantes, passada que foi a época das Descobertas, em que fomos pioneiros da globalização. A partir de Londres, onde estudou, Paula Rego desenvolveu uma carreira incontornável, ganhando o reconhecimento internacional, em termos de crítica e de mercado de arte. Forçando paralelismos, Amália conseguiu fora de fronteiras, desde cedo, um sucesso maior do que aquele que aqui obtinha - sendo reconhecida e aplaudida em todo o mundo. Serve toda esta introdução para falar da importância da preservação da memória audiovisual dos nossos criadores. O filme, magnífico, sobre Paula Rego foi uma encomenda da BBC ao seu filho, que é um cineasta com méritos reconhecidos; Amália foi filmada por Augusto Cabrita, para um documentário nunca finalizado. Este é o retrato do nosso subdesenvolvimento audiovisual. Não preservamos a nossa memória. O operador de serviço público de televisão, a RTP, desperdiça recursos em séries grotescas, em concursos serôdios e em transmissões de futebol, mas é incapaz de ter uma linha de produção de documentários, continuada e coerente, que preserve a memória do talento português contemporâneo para as próximas gerações.

Dixit
Lisboa não pode ser uma estância turística sem lisboetas lá dentro.
Henrique Raposo

Semanada
 As viagens de finalistas que se realizam nas férias da Páscoa estão esgotadas há quatro meses e só uma agência, das várias que actuam nesta área, vai levar 8.000 jovens para o Sul de Espanha  ainda há 154 milhões de escudos, em notas antigas, nas mãos dos portugueses e, no ano passado, foram trocadas notas da antiga moeda no valor de 1,1 milhões de euros  há mais de cinco mil idosos que vivem isolados, dos quais 3.500 vivem sozinhos  Portugal fabricou e exportou 96 milhões de euros em notas de 50 euros para outros países comunitários  em 2016, os hospitais públicos sinalizaram 708 doentes, na maioria idosos, que ficaram nos hospitais além do período normal de internamento porque os familiares não os queriam de lá tirar  as ajudas concedidas aos bancos e sector financeiro já custaram 13 mil milhões de euros aos portugueses  Portugal foi o sexto país da União Europeia que mais pagou em ajudas financeiras à banca  tudo somado, e se a operação de resgate do Novo Banco não correr bem, o antigo BES poderá custar ao sistema financeiro, aos obrigacionistas e aos contribuintes 11,2 mil milhões de euros  mais de 118 milhões de pessoas vivem em risco de pobreza ou exclusão social na União Europeia  de acordo com os resultados do estudo TGI da Marktest, 33,4% dos portugueses têm consola de jogos em casa.

Provar
Gosto de cozinhar - ao fim do dia, descontrai-me e ajuda-me a organizar as ideias. Gosto de imaginar refeições simples a partir de conservas - e não exclusivamente saladas primaveris ou veraneantes. Muitas conservas ligam bem com uma boa massa ou com arroz. Durante uns tempos, experimentei o que a seguir vou relatar com arroz carolino enxuto. Ultimamente, tenho usado massa, os cappelletti da marca Garofalo, que existem nomeadamente no Pingo Doce.
Os cappelletti têm a vantagem de ganhar bem o sabor daquilo que com eles se cozinha, mais do que outras massas. Neste caso, resolvi misturá-los com mexilhões de escabeche, de conserva.
Os portugueses, da Pitéu, são bons mas têm o escabeche um bocadinho puxado e demasiado presente. No El Corte Inglés, encontrei uns mexilhões em escabeche das rias galegas, da marca Atlantic, que são menos intensos no tempero e mais leves, e que se misturam de forma ideal com os cappelletti. Normalmente, e foi o caso, incluo no final da cozedura da massa (e deixo-a sempre um pouco menos tempo do que o recomendado) meia dúzia de tomates cherry cortados em oitavos e umas ervas aromáticas próprias para massas. Só depois de escorrer adiciono o conteúdo da conserva, mexo bem e tapo durante uns dois minutos, para misturar os sabores. A acompanhar, provei o Marquês de Borba branco de 2016, feito por João Portugal Ramos a partir das castas Arinto, Antão Vaz e Viognier. É fresco, com sabores citrinos, colheita cuidada, tem 12,5% e um preço no limiar dos cinco euros. Descontrai e proporciona boa conversa. Bom apetite.

Gosto
O Indie Lisboa vai apresentar três centenas de filmes entre 3 e 14 de Maio, dos quais 45 são portugueses. 

Não gosto
O Comandante da Escola Prática da GNR foi exonerado por se queixar da demora na abertura de um curso de formação de 450 militares. 

Ver
Estreou esta semana o filme " Paula Rego, Histórias & Segredos" e sexta-feira dia 7 inaugura a exposição com o mesmo título na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais. O filme fica em cartaz em Lisboa, Porto e Cascais e, neste fim-de-semana, é assinalado o dia Paula Rego, com exibições especiais em 12 cidades, por todo o país. Mais tarde, o filme será editado em DVD e exibido na RTP. Todos podem ter oportunidade de o ver. Trata-se de uma produção encomendada pela BBC e realizada por Nick Willing, um cineasta que é filho de Paula Rego e que, na estreia, fez questão de dizer que este é "o filme que fiz com a minha mãe e não sobre a minha mãe". O filme baseia-se em conversas com a artista e em imenso material de arquivo, de fotografias a filmes familiares em super 8 e que são particularmente importantes para mostrar a vida de Paula Rego e de Victor Willing, o seu marido, durante os anos em que viveram em Portugal, na Ericeira. Este documentário mostra de forma exemplar o processo criativo de Paula Rego - o que ela faz, porque o faz e como o faz e, a esse nível, é de uma riqueza impressionante no detalhe e naquilo que nos transmite. Nick Willing, apesar de ser filho, consegue um olhar simultaneamente próximo e distante, mas sempre íntimo, no entanto, sem pudores nem complacências. Como Paula Rego diz a certa altura do filme, ela pinta continuamente para não falar - é a pintura que a alimenta: "A vida é o trabalho", desabafa, evocando as muitas dificuldades a que a sua opção artística esteve associada até surgir o sucesso.
"Paula Rego, Histórias & Segredos" é ainda uma viagem ao país que Portugal era nos anos 60. Temas como a presença da religião, do sexo ou do medo não são evitados, com incursões entre as influências de Dante e de Disney na obra da pintora. A edição e a montagem são exemplares, a sonoplastia é certeira. E o filme termina com Amália, a cantar a "Gaivota", de Alexandre O'Neill, recordando o amor num perfeito coração, a mesma Amália que é citada em diversos momentos destas "Histórias & Segredos".

Arco da Velha
O pároco da paróquia de Olhão mandou decapar a jactos de água a igreja matriz da cidade, construída no século XVI, para retirar a tradicional cal e, em sua substituição, mandou pintar o templo com tinta plástica.

Ouvir
Regressemos a 1970, há quase meio século. Nesse ano, Amália celebrava os seus 50 anos e fez "Com Que Voz", o seu disco mais premiado. Já conquistara público no Japão e na URSS, mas em 1970, logo em Janeiro, deslumbrou os italianos, em Roma. Esse foi o início de uma série de digressões por toda a Itália. Já antes, desde 1950, Amália tivera actuações pontuais em palcos italianos e na RAI. Mas digressões a sério, face a face com o público, aconteceram de 70 para a frente - quase 200 recitais em toda a Itália até 1994 -, os anos mais intensos foram de 70 a 78. Logo no recital de Janeiro de 1970, na assistência estava Orson Welles, que se confessava à imprensa italiana grande fã da fadista: "O fado é um dos géneros mais complicados e é excepcional assistir a um concerto da grande Amália." É deste tempo que datam filmagens e fotografias de Augusto Cabrita, que acompanhou Amália com o objectivo de fazer um documentário nunca terminado, "O Mundo de Amália". Graças ao persistente e exemplar trabalho que Frederico Santiago tem feito no arquivo da Valentim de Carvalho, foi agora editado um triplo CD, "Amália em Itália", que agrupa gravações de alguns dos recitais e também temas de edições discográficas feitas para o mercado italiano. "Amália em Itália - a una terra che amo" é uma edição incontornável para os apreciadores do trabalho de Amália Rodrigues. É uma edição de coleccionador, cheia de raridades.

Folhear
Lodestars Anthology é uma revista independente, editada no Reino Unido desde 2014. Destina-se a viajantes - não é bem a quem gosta de viagens turísticas organizadas, mas sim a quem tem curiosidade em conhecer as gentes, costumes e características dos países que visita. Cada edição é exclusivamente dedicada a um país e a mais recente tem por tema o Japão. É um número magnífico, como sempre muito bem fotografado e ilustrado, com 160 páginas, ao longo das quais visitamos a cultura, a arte, a tradição, a religião, pequenos paraísos escondidos, ou a gastronomia. Conjuga crónica com reportagem e entrevista, mostra a natureza, mas também o efeito que a arquitectura nela pode exercer. Na realidade, a Lodestars sai dos roteiros turísticos e descobre o pormenor, do florir das cerejeiras até aos locais onde perduram as tradições, maravilhas escondidas como um laboratório botânico ou, noutro campo, a vida das mulheres mergulhadoras que, numa zona do país, desde há séculos capturam marisco entre as rochas. No fundo, a Lodestar Anthology é sobre criatividade, descoberta e viagem. Já fez edições sobre Inglaterra, Canadá, Escócia, Itália, Austrália, Suécia - o Japão é o sétimo país - e os próximos são Nova Zelândia e França, ainda este ano. Podem seguir as actividades no site, no Facebook, ou comprar a revista online ou na Undercover, em Lisboa, na Rua Marquês Sá da Bandeira.


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