João Costa Pinto
João Costa Pinto 14 de janeiro de 2019 às 20:40

2019 - Ano de transição? Para onde? - (I)

A "guerra comercial" iniciada por Trump está a fragmentar a arquitectura institucional multilateral que - desde a II Grande Guerra - enquadrou e favoreceu a globalização, com consequências imprevisíveis.

1. Para um observador preocupado com a actual situação política e económica, 2019 apresenta-se cheio de incertezas e de riscos.

 

No nosso caso e para além do claro esgotamento político da solução excepcional que tem suportado o Governo no Parlamento, confrontamo-nos com uma questão central: até onde nos pode levar o modelo que tem vindo a assegurar o crescimento da nossa economia? É sustentável um crescimento muito dependente de sectores e actividades de baixa produtividade, em que a competitividade permanece refém de baixos salários? Modelo que alimenta um círculo perverso: baixos níveis salariais não induzem inovação tecnológica, nem ganhos de eficiência e de produtividade. O que, por sua vez, não permite às empresas atrair mão-de-obra mais qualificada e melhor remunerada, sem perdas de competitividade. Círculo vicioso que contribui para perpetuar um tecido produtivo fragmentado e pouco eficiente. Situação agravada por uma intermediação financeira que tende a olhar com desconfiança para o risco empresas e empresarial. Sobretudo quando solicitada a financiar o investimento e a inovação com instrumentos de dívida a médio e longo prazos.

 

Ambiente agravado por uma taxa de poupança interna muito baixa que reduz a nossa capacidade para financiar o investimento sem o recurso a endividamento externo. Situação que, pelo menos em parte, reflecte a pesada carga fiscal suportada pelas famílias com alguma capacidade de aforro.

 

Quebrar este círculo de efeitos políticos, económicos e sociais perversos, implica necessariamente um esforço persistente e pressupõe uma articulação entre políticas públicas adequadas, empresas e investidores. Políticas que permanecem fortemente condicionadas por uma Europa do euro politicamente paralisada e incapaz de dar novos passos no caminho da integração financeira que iniciou com o euro e prosseguiu - forçada pela crise - com o lançamento parcial de uma União Bancária.

 

2. No entanto o futuro imediato do grande projecto de integração política, económica e social da Europa apresenta-se, neste início de 2019, incerto e cheio de riscos.

 

A substituição de Draghi aumenta a incerteza em relação ao modo como o BCE se propõe "normalizar" a sua intervenção sobre os mercados financeiros europeus. Questão crucial quer à luz do nível de alavancagem da generalidade das economias do euro, quer da situação dos mercados bancários e dos bancos europeus. Por outro lado, a "saída de cena" de Merkel está a paralisar politicamente a Alemanha e a Europa do euro, quando se aproximam as eleições para o Parlamento Europeu, num contexto em que o Brexit enfraqueceu a Europa e o projecto europeu perante os novos blocos políticos e económicos em gestação e, em alguns países, se verificam avanços dos movimentos nacionalistas, populistas e anti-liberais.

 

Para além disso, a "guerra comercial" iniciada por Trump está a fragmentar a arquitectura institucional multilateral que - desde a II Grande Guerra - enquadrou e favoreceu a globalização, com consequências imprevisíveis. Uma das questões em aberto prende-se com o seu impacto sobre a economia chinesa, no momento em que esta procura ajustar o modelo de crescimento que impulsionou o seu extraordinário desenvolvimento económico nas últimas décadas. (Questões para outro dia).

 

Economista

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

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