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Ulisses Pereira ulissespereira@hotmail.com 27 de Abril de 2020 às 11:29

Uma crise que beneficia as grandes empresas

O mercado, estranhamente, ignorou a importância da epidemia que estava a fazer a China sofrer.

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Os mercados tiveram uma semana de quedas, com a bolsa americana a assumir perdas mais fortes, enquanto na bolsa portuguesa a desvalorização foi mais ligeira, com os mercados a corrigirem das fortes subidas das semanas anteriores.

Uma das razões para o bom desempenho dos mercados no último mês e meio tem a ver com o comportamento das empresas de maior dimensão. Se compararmos o desempenho, desde os seus máximos de 19 de Fevereiro, podemos verificar que o S&P500 desvalorizou-se cerca de 17%, o S&P MidCap 28% e o S&P SmallCap cerca de 32%. E se pegarmos apenas nas cinco maiores empresas do S&P500, podemos verificar que elas estão, em média, a descer apenas cerca de 3% desde o máximo histórico do S&P.

Os números são claros e inequívocos. As grandes empresas são aquelas que têm mais capacidade para resistir a este difícil momento que estamos a viver. E - como em todas as crises - quem sobreviver sairá mais forte e com uma quota de mercado reforçada. Todas sofrem, mas as grandes empresas sofrem menos.

Uma das razões que os touros apontam é o facto de os mercados anteciparem a economia e que, por isso, eles começam a subir antes de a economia recuperar. Ao longo dos muitos anos de escrita, tenho alertado para isso e foi essa também uma das razões para ter ficado optimista na bolsa portuguesa no Verão de 2012, numa altura em que o país estava em escombros, sob liderança da "troika", numa análise muito polémica nesse momento.

A grande questão que tenho em relação ao actual momento tem a ver com o mercado não ter antecipado esta crise. Bem sei que as pandemias não se antecipam, mas o mercado - estranhamente - ignorou a importância da epidemia que estava a fazer a China sofrer. Na verdade, o mercado apenas reagiu quando a crise alastrou à Europa. Depois caiu abruptamente, com uma das maiores quedas da história em tão curto período. Mas a não antecipação leva-me a dúvidas se o mercado irá agora tão correctamente antecipar o que aí vem.

O grande acontecimento da semana passada foi o facto de os contratos de futuro de Junho de crude (WTI) terem negociado a valores negativos. Não é minha intenção recordar o que aconteceu, pois foi amplamente debatido, e no negocios.pt publiquei um vídeo em que explicava com detalhe o que levou a que tal bizarra situação tenha acontecido. Mas, ao contrário do que por aí se tem escrito e dito, os produtores de crude não pagaram para que alguém ficasse com o seu produto.

Por definição, um contrato de futuros estabelece a compra/venda de um activo a um determinado preço numa determinada data. Eles foram criados para que os produtores e os grandes compradores pudessem, antecipadamente, definir um preço a que iam vender o produto daqui a alguns meses, funcionando como "edge". Claro que depois desse contrato de futuros começar a ser negociado no mercado, ele passou por muitas mãos, que o foram comprando e vendendo, sobretudo especuladores que não têm qualquer interesse físico no petróleo mas apenas ganhar dinheiro com a sua flutuação. Ou seja, mesmo que, no vencimento desse contrato, alguém o tivesse comprado a valores negativos, isso apenas queria dizer que essa pessoa ia receber dinheiro para ficar com o crude, mas não significa que o produtor tenha pago para vender o produto. É muito importante perceber o mecanismo de funcionamento do mercado de futuros para evitar que se tirem conclusões erradas.

Muitas das vezes, os movimentos nas bolsas não são fáceis de perceber. Mas este afundar do preço do crude ao longo dos últimos meses é facilmente perceptível por todos. Se há uma baixa gigantesca da procura e se o corte da oferta foi curto, é evidente que o preço é esmagado. É assim no crude ou numa qualquer feira deste país. Enquanto a produção não for significativamente reduzida, com a capacidade de armazenamento no seu máximo, o preço do crude vai estar pressionado, muito embora o fundo possa já ter sido feito naqueles dias de pânico. Haja coragem de se tomar as decisões evidentes e obrigatórias para a resolução desta crise.

Apesar de, no artigo da semana passada, ter dado conta de que me tinha tornado pessimista para os próximos tempos nos mercados, há alguns argumentos optimistas a que reconheço validade. Os dados da AAII mostram que existem apenas 24,9% dos investidores na sua sondagem que estão optimistas, contra 50% de pessimistas, um indicador de sentimento que normalmente antecipa subidas quando há uma grande percentagem de pessimistas, e descidas quando o oposto acontece. Por outro lado, muitos gestores de "hedge funds" afirmam que estão plenamente convictos de que está para muito breve a descoberta de um antiviral eficaz no combate aos efeitos do vírus. Não há novidades da comunidade científica nessa matéria mas, a acontecer, mudaria por completo a forma como olharíamos para a pandemia e para a economia.

Apesar de sensível a esses argumentos, considero mais fortes os que tenho vindo a evidenciar, mantenho por isso o fato de urso que vesti há uma semana. A queda da semana passada em nada alterou essa minha forma de olhar para o mercado. Já estive do lado errado muitas vezes ao longo da minha vida como investidor e analista, mas nunca desejei estar tão errado como agora. Seria sinal de que uma solução clínica tinha sido encontrada ou que o efeito na economia não ia ser tão significativo como antecipo.

Artigo escrito em 24/04/20 às 14h45
Fontes: https://live.euronext.com/pt/
https://www.nyse.com/index
https://www.cmegroup.com/
https://www.aaii.com/sentimentsurvey

Ulisses Pereira não detém qualquer dos ativos analisados. Deve ser consultado o disclaimer integral aqui,onde também pode ser consultada a lista com as anteriores análises de Ulisses Pereira.

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

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