José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 17 de janeiro de 2014 às 00:01

A aniquilação do risco

No caso específico de Portugal, a queda de 3 pontos percentuais das taxas de juro da dívida pública a dez anos observada nos últimos seis meses traduz mais a expectativa dos investidores de que o país terá uma saída "limpa" do programa da Troika, do que propriamente uma avaliação positiva dos progressos estruturais alcançados.

 

Se mesmo em abstrato o conceito de risco é extremamente complexo, no concreto, defini-lo é uma das tarefas mais arriscadas com que um decisor se pode deparar, pois implica uma tomada de posição sobre um futuro incerto. Mas isso é o que diariamente fazem todos aqueles que se aventuram no mundo da finança. O resultado agregado desses exercícios de avaliação do risco levados a cabo por cada investidor influencia de forma inexorável a evolução dos mercados financeiros. Desvios materiais – positivos ou negativos – entre as perceções dos investidores e a realidade acabam invariavelmente por ser corrigidos, sendo que estados de confiança excessiva tendem a ser sancionados com particular inclemência.

 

É neste contexto que o otimismo ébrio que atualmente reina nos mercados financeiros dos países mais avançados começa a ser causa de apreensão em alguns quadrantes de opinião. É certo que "tristezas não pagam dívidas"; mas desengane-se quem acha que qualquer crise económica se ultrapassa com uma boa dose de esperança sem que antes sejam atendidas as causas estruturais dos problemas.

De entre as principais economias, a maladia de excesso de crença no porvir é mais evidente nos EUA. Com efeito, na "Terra das Oportunidades", os índices acionistas de referência têm vindo a bater recordes sucessivos, os preços das habitações voltaram a disparar, apesar da estagnação dos salários, e o fenómeno do "subprime", que desgraçou o mundo em 2007, migrou do crédito hipotecário sobre habitações dos subúrbios decadentes para o crédito automóvel e os empréstimos aos estudantes.

 

Tudo isto são reminiscências do período pré-crise, que então, como agora, se justificam pelo preceito "desta vez é diferente". Até pode ser que seja, mas o risco do contrário não está devidamente refletido no preço dos ativos financeiros. Em boa parte, esta negligência para com os perigos potenciais decorre da presença da Reserva Federal como comprador de última instância de muita da matéria tóxica que vai proliferando no mercado.

Não obstante a estagnação da atividade, o nível recorde do desemprego e o elevado nível de endividamento agregado, na Europa, a situação não é dissimilar. Os ventos de confiança soprados pelo Atlântico têm tido um reflexo notório nas praças acionistas do Velho Continente, mas é a compressão dos prémios de risco associados à dívida soberana da periferia que merece maior destaque. O alívio que essa evolução representa para países financeiramente exauridos é uma inequívoca boa notícia. O problema é que o efeito desse bálsamo só durará se acompanhado pela manutenção do processo de consolidação orçamental, reforma do estado e liberalização da economia. Em qualquer outro cenário, todos os ganhos se revelarão efémeros.

No caso específico de Portugal, a queda de 3 pontos percentuais das taxas de juro da dívida pública a dez anos observada nos últimos seis meses traduz mais a expectativa dos investidores de que o país terá uma saída "limpa" do programa da Troika, do que propriamente uma avaliação positiva dos progressos estruturais alcançados. Afinal, a recuperação da economia nacional é ainda muito ténue e incerta, os riscos de disrupção política mantêm-se e o contexto social tem vindo a agravar-se em sintonia com a polarização da sociedade em torno do tema do ajustamento. O perigo é que o otimismo – sempre volúvel em tratando-se de mercados financeiros - infundido pelos investidores a respeito do nosso destino degenere numa atitude de complacência acrítica.

 

A este respeito, a deterioração das exportações líquidas e a forte recuperação do consumo privado na segunda metade de 2013 são indícios que, também em Portugal, o rápido regresso aos bons velhos tempos começa a adquirir contornos de miragem. Acontece que essa não é uma opção viável. Aqui, o risco é esquecer as duras lições da nossa história económica recente. Aqui, o risco é a aniquilação da perceção do risco como agente de mudança. Parafraseando Franklin D. Roosevelt – mas ao contrário – a única coisa que temos de temer é não ter medo.

Chief economist do Millenniumbcp


Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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