João Costa Pinto
João Costa Pinto 08 de agosto de 2018 às 20:13

A economia portuguesa no pós-troika - (V)

O elevado nível de vulnerabilidade a pressões exógenas da nossa economia só pode ser reduzido através de crescimento, acompanhado por um controlo apertado do financiamento do Estado e das famílias.

1. Nos últimos artigos procurei chamar a atenção para as limitações do modelo que tem vindo a impulsionar o crescimento da nossa economia. Evolução que está a conduzir ao enraizamento de uma estrutura produtiva com um peso crescente de actividades de baixa produtividade, incapazes de suportar de forma sustentada um salto qualitativo do nível médio de rendimento e bem-estar. De igual modo chamei a atenção para os riscos de esgotamento deste modelo, à medida que é absorvido o desemprego, num quadro em que escasseia a mão-de-obra qualificada. Devendo embora ser reconhecido o importante impacto social e económico do crescimento dos últimos anos - ao permitir absorver o nível muito elevado de desemprego criado pelo programa da troika - é crucial aumentar o investimento produtivo, de modo a acelerar o crescimento.

 

Compreendemos a importância crítica desta questão se a avaliarmos à luz do nível de alavancagem - endividamento público e privado - atingido pela nossa economia. Num contexto político europeu que continua a afastar qualquer forma - mesmo que mitigada - de mutualização da dívida, é da nossa responsabilidade preservar o acesso ao financiamento em condições de sustentabilidade. O elevado nível de vulnerabilidade a pressões exógenas da nossa economia - em particular as que dependem da evolução dos mercados financeiros, no momento em que o BCE se prepara para normalizar a sua política monetária - só pode ser reduzido através de crescimento, acompanhado por um controlo apertado do financiamento do Estado e das famílias. Num quadro que favoreça o afluxo de recursos financeiros ao investimento produtivo.

 

2. É neste contexto crucial criar condições - de mercado e institucionais - capazes de oferecer às empresas e aos empresários novas fontes e novos instrumentos de financiamento. Uma oferta diversificada de alternativas de financiamento que vão desde o capital de risco aos instrumentos de capital e quase-capital, passando pelo financiamento da inovação, dos aumentos de eficiência e de produtividade.

 

No início da legislatura, o Governo lançou uma Unidade de Missão que, além de um excelente diagnóstico dos bloqueamentos enfrentados pelas empresas, deixou um importante conjunto de propostas concretas dirigidas à diversificação dos instrumentos de financiamento das empresas.*

 

Havia entretanto sido criada uma nova instituição financeira - IFD** - que, depois de um longo período de gestação, se apresentava com vocação para a concepção e lançamento no mercado de novas soluções para o financiamento do tecido produtivo.

 

No entanto, enquanto a generalidade das medidas mais inovadoras propostas pela Unidade de Missão permanece por activar, a IFD parece ter abandonado a ambição de apoiar e de estimular a inovação financeira dirigida à diversificação das fontes e dos instrumentos de financiamento das empresas que continuam a ter de absorver os efeitos negativos do recuo do mercado bancário. Num contexto em que o grupo financeiro público continua o percurso que lhe terá sido traçado por Bruxelas - arriscando, deste modo, tanto uma perda de posição nos mercados nacional e internacional como a sua relevância enquanto instrumento de políticas públicas dirigidas à inovação, à melhoria da produtividade, ao crescimento e ao desenvolvimento económico e social.

 

*Programa Capitalizar.

 

**IFD: Instituto Financeiro de Desenvolvimento.

 

Economista

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