João Costa Pinto
João Costa Pinto 15 de julho de 2019 às 19:03

A regionalização e o Interior - (II)

Além de algumas medidas avulsas, continua a faltar uma visão global e integrada, construída sobre os recursos de maior potencial das diferentes regiões - floresta, vitivinicultura, ovinocultura, património natural, cultural e histórico.
1. Como referi no último artigo, dois anos depois dos incêndios de 2017 nada mudou de essencial e o tecido económico e social do chamado "Interior" continua a perder coesão e a enfraquecer. Na verdade, e além de algumas medidas avulsas, continua a faltar uma visão global e integrada, construída sobre os recursos de maior potencial das diferentes regiões - floresta, vitivinicultura, ovinocultura, património natural, cultural e histórico. Uma visão capaz de suportar programas integrados e transversais, dirigidos à revitalização e ao desenvolvimento das economias regionais.

 

Trata-se de lançar um movimento de transformação e de modernização com resultados graduais e a prazo que devia tirar partido de dois tipos de factores: por um lado, da existência de alguns centros urbanos que apresentam maior vitalidade económica e social. Aglomerados populacionais que têm beneficiado tanto da acção de autarcas empenhados e mais competentes, como de uma localização geográfica favorável e que podem transformar-se em pólos de irradiação de investimento, inovação e crescimento; por outro, o potencial que nas regiões do interior pode representar a exploração da floresta, que permanece como o nosso mais importante recurso renovável. Recurso cuja exploração rentável depende da reorganização da floresta e do desenvolvimento, em torno desta, de um "cluster" (*) de sectores produtivos, geradores do crescimento e do emprego, necessários à atracção e à fixação de populações - questão crucial, dada a crescente desertificação demográfica.

 

2. Existem entre nós os conhecimentos científicos e técnicos para a concepção de programas capazes de responder a estas preocupações. No entanto e pelas razões indicadas no último artigo, não me parece possível que tais programas possam, em tempo útil, ser enquadrados e executados pelos dois "centros de poder" existentes - central e local. Cepticismo que me leva a procurar respostas num enquadramento alternativo que depende do lançamento de um adequado processo de regionalização e de descentralização. Trata-se de implantar um quadro - organizativo, técnico/operacional, administrativo, legal e fiscal - capaz de, simultaneamente: favorecer e impulsionar a atracção de investimento e de talento; enquadrar e coordenar a utilização dos recursos a mobilizar; conceber e executar tais programas em ligação e sobretudo em articulação com o "poder central" e com a rede das autarquias. Quadro que deve responder a questões com implicações políticas e técnico/operacionais, como é o caso da identificação dos critérios a utilizar no desenho das diferentes regiões, além da amplitude das funções e da composição das estruturas regionais a criar.

 

Em boa verdade, resta saber se tais preocupações são partilhadas pelas "elites políticas" que integram os chamados "partidos de poder". Estas têm uma boa oportunidade de o mostrar - ou não - nos programas eleitorais que estão a preparar.

 

Nascido e criado numa comunidade beirã do sopé da Serra da Estrela - Vila Nova de Tazem - quero acreditar que o processo de erosão económica e social e de desertificação demográfica daquelas regiões pode ser travado e invertido em tempo útil - eventualmente (?).

(*) "Cluster" grupo de empresas que, neste caso, se podem formar em torno da exploração da floresta.

Economista

 

Artigo está em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

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