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João Sousa Andrade 25 de Março de 2013 às 09:52

A previsão da taxa de desemprego para 2013 deverá aproximar-se dos 19%

Parece-me que devemos estar preparados para taxas de desemprego na casa dos 18%, a rondar os 19%. A menos que a emigração venha baralhar estes cálculos. Mas disso falaremos depois

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Era do nosso conhecimento que as previsões sobre a economia portuguesa feitas por instituições nacionais eram melhores que as das instituições internacionais. Com duas exceções: os valores da conta do Estado e a inflação. Ou seja, quando a "política entrava", a qualidade técnica baixava. As estimativas da taxa de desemprego feitas pelo Governo têm sido demasiado otimistas. É bem certo que em tempos de crise económica as previsões podem falhar redondamente porque as relações estáveis de períodos normais deixam de se verificar. Mas também é certo que é precisamente nestes períodos que elas são mais preciosas. 


Tomemos a relação da taxa de desemprego com o produto e, partindo da previsão desta última, façamos a previsão daquela. É conhecida por Lei de Okun a relação entre a taxa de crescimento do produto (g) e a variação da taxa de desemprego (dU). Numa formulação muito usada temos g=3-2xdU. Significa que a taxa de desemprego estabiliza (dU=0) quando o PIB crescer 3% e será necessário um crescimento do PIB de 5% para que a taxa de desemprego se reduza de 1 ponto percentual (p.p.), por exemplo, passe de 10% para 9%. Para o caso em apreço, consideremos uma relação menos exigente em termos do produto, g=2.5-2xdU. A taxa de desemprego estabiliza para o crescimento do PIB de 2,5% e a queda de 1 p.p. será acompanhada pelo crescimento do PIB de 4,5%. Para os nossos cálculos não esqueçamos que impor um crescimento menor do PIB associado a variações da taxa de desemprego leva a que em período recessivo os efeitos negativos sobre esta última sejam superiores. Podemos ainda admitir que existe um atraso na relação entre a taxa de desemprego e o crescimento e que metade do ajustamento é corrente e a outra metade regista-se com um desfasamento.

Aplicando a partir de 2008 aquela fórmula obtemos valores previsíveis para a taxa de desemprego. Em 2012, a taxa efetiva foi de 15,6% e as previstas foram de 16,5% e de 16,0%. Esta última com o ajustamento de dois anos como referido acima. Para 2013, a taxa prevista pelo governo era de 16.4%. As taxas previstas usando aquela fórmula eram de 18,7% e 18,5%. Em face da atualização da taxa de variação do PIB para -2,3% o governo prevê 18,2% e aquela nossa fórmula aponta para 18,9% e 18,6%. Não há dúvida de que a nova previsão é muito mais realista.

Parece-me que devemos estar preparados para taxas de desemprego na casa dos 18%, a rondar os 19%. A menos que a emigração venha baralhar estes cálculos. Mas disso falaremos depois.

A taxa de desemprego do INE não reflete o desemprego em situação de crise

O Inquérito ao Emprego da responsabilidade do INE procura apenas refletir uma realidade de natureza territorial. Uma economia sujeita a choques importantes será afetada de forma diferente nos seus diferentes setores de atividade, o que poderá não ser detetado numa amostra que não tenha em linha de conta a distribuição do emprego por sectores. Parece-nos que é isso que está acontecer. Por outro lado, não ter em conta a emigração é fechar os olhos a uma realidade premente. Álvaro Santos Pereira (ASP) classificava o atual surto emigratório como a terceira vaga de emigração. A primeira, para o Brasil desde meados do Séc. XIX e que atingiu os valores máximos no início do Séc. XIX. A segunda, para a Europa Central, sobretudo após 1960.

Os valores indicados recentemente pelo INE para a emigração são obtidos no Inquérito ao Emprego e estão longe dos valores efetivos desta. Tomando os valores citados por ASP (até 2008) que os recolheu nos países de destino e acrescentando-os com os que resultam da aplicação da evolução dos do INE (à falta de melhor …) obtive os dados no Quadro em baixo. Para 2011, o valor era de 219 mil pelo que o substitui por 150, talvez mais realista e muitas vezes referido como uma boa estimativa. Os emigrantes não constam da população ativa, não são nem empregados nem desempregados. Mas se emigraram foi porque não tinham emprego no país. Ou tendo, aspiram a melhores remunerações. Mas neste caso o seu lugar vai criar um emprego de que beneficia um desempregado. Pelo que a situação é equivalente a dizer que ficando cá estariam desempregados. Admitimos que 11,8% (valores em 2011 dos dados do INE) representam idades entre 0-14 anos e mais de 65 anos e que por isso não devem ser considerados na "população ativa" emigrante. Acumulando os valores da emigração a partir de 2007 obtemos para a taxa de desemprego a última coluna do Quadro que deve ser comparada com a penúltima dos valores "efetivos" do Inquérito ao Emprego. Os valores atuais representam um acréscimo de praticamente 10 pontos percentuais.

Como chamar a esta taxa de desemprego corrigida pela emigração? Todavia não devemos esquecer que os nossos valores da emigração são meras estimativas. Uma coisa é certa, os cálculos do INE estão subavaliados pelo facto de não terem em conta o fenómeno da emigração. O Inquérito ao Emprego poderá servir para avaliar a evolução do fenómeno, conferida periodicamente com dados mais fidedignos, a partir de uma base realista. Para além disso é desejável que o mesmo Inquérito tenha em conta uma base de distribuição da produção dos trabalhadores inquiridos, como dissemos mais acima. Desta forma ganharíamos todos, em informação e em confiança.

Da emigração e da sobrestimação do emprego

Começámos por ver que a previsão da "taxa de desemprego" para 2013 será um valor demasiado otimista. Vimos depois que o Inquérito ao Emprego não tem em conta choques diferentes sobre os diversos setores de produção e que por isso não se afigura como um bom indicador do desemprego em tempos de crise. Vimos ainda que ao não ter em conta a emigração, os valores da taxa de desemprego subavaliam bastante este fenómeno.

Para além de um problema de informação, existem ainda outros dois. Imaginemos que são aplicadas medidas restritivas na economia que deveriam conduzir a uma dada taxa de desemprego que por sua vez faria pressão para a redução dos salários. As medidas levariam a um crescimento do desemprego que se transformaria em emigração e que não conduziriam ao efeito desejado. Suponha-se que se duplica a dose: mais emigração e nada. Os mecanismos de política económica têm assim que ter em conta este fenómeno muito português. Vejamos o segundo problema.


Se o Inquérito ao Emprego retrata a repartição relativa entre empregados e desempregados, devemos corrigir o valor da população ativa (emprego + desemprego) para ter em conta a emigração, coisa que atualmente não se faz. Se retirarmos à população ativa o valor que estimámos da emigração (menos o que é estimado pelo INE e que já é tido em conta nos seus dados) obtemos o valor desta, correto. Fazendo respeitar a relação, acima, emprego vs. desemprego, dados pela taxa de desemprego do INE, obtemos os novos valores do emprego que respeitam uma avaliação mais correta da população ativa e verificam a taxa que o INE calcula para o desemprego (dos que por cá vão ficando).

O Quadro mostra-nos os valores da sobrestimação do emprego por parte do INE. Mas aqui surge o problema das estimações do próprio produto: global e suas componentes. Se o produto estiver calculado de forma correta, não o estará a produtividade. E faltará saber como foi esse produto obtido. E a sobrestimação do emprego é mais grave que qualquer um dos outros problemas.

Professor de economia catedrático na Universidade de Coimbra
Artigo escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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