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Alfredo Marques - Professor Universitário 01 de Outubro de 2015 às 00:01

Agora sim, a bancarrota está mais perto

Na retórica da campanha eleitoral, há uma falácia muito presente com que uma boa parte dos eleitores se deixa iludir: Portugal estaria hoje "salvo" da bancarrota.

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Ora, a verdade é a inversa: tendo a dívida pública aumentado fortemente nos últimos anos, de 111% do PIB em 2011 para 130% em 2014 (como mostra o gráfico 1), e continuando a aumentar, como o Banco de Portugal acaba de revelar, o risco de estrangulamento financeiro aumentou na mesma medida. Apenas não é percetível, devido à baixa sem precedentes das taxas de juro, não só em Portugal, mas também em todos os outros países da Europa, assim como nos EUA e no Japão.

Foi a política dos Bancos Centrais de compra de dívida pública que levou a esta baixa e que a tem mantido. Quando esta política se alterar e os juros voltarem a subir - o que acontecerá inevitavelmente mais tarde ou mais cedo, os países mais endividados, como Portugal, mostrarão imediatamente a extrema vulnerabilidade em que se encontram e a sociedade pagará o preço correspondente.

 

Por outro lado, a melhoria do emprego é uma fábula que ofende qualquer cidadão com um mínimo de informação (e mais ainda os desempregados). Manipulam-se os números com a «taxa de desemprego», que é um indicador que se presta facilmente a isso. Ora, como se vê no gráfico 2, o número de pessoas empregadas baixou de 5,11 milhões em 2008 para 4,13 milhões em 2013, primeiro devido à crise e, depois, devido à austeridade. Subiu para 4,48 milhões no 1º trimestre de 2015, mas esta «recuperação», pelo seu caráter inexpressivo face à queda verificada anteriormente, só pode ser uma história para adormecer as crianças ou para os adultos que não querem ver a realidade ou não compreendem o fraquíssimo alcance de tal facto (para já não falar do caráter artificial e das muito baixas remunerações de muito deste emprego «criado»). 

 

O crescimento do PIB é outra história semelhante. Após a queda verificada desde 2008, particularmente acentuada nos anos de 2012 e 2013 (como se vê no Gráfico 3), rejubilar com taxas de crescimento entre 1 e 2%, depois de o país ter caído no poço e sendo o mais pobre da UE-15, ou releva da pura ignorância ou exprime apenas o desejo de deitar poeira para os olhos de pessoas de boa fé. Como mostra o gráfico 3, o nível atual do PIB está pouco acima do de 2000 e abaixo do de 2001. Qualquer economista ou responsável político sério abster-se-ia de tecer loas a uma performance tão medíocre. A este passo, o país mais não fará do que afastar-se ainda mais dos seus parceiros europeus e continuará a ser ultrapassado por muitos dos que até há poucos anos pertenciam ao grupo dos países subdesenvolvidos.

 

Mas basta pensar um pouco, sem ser necessário ser especialista, para compreender que todo este «sucesso» é altamente ilusório. Que mudança estrutural teve a economia do país para que pudesse ter havido verdadeiro progresso, ou qualquer movimento nesse sentido? O investimento, a preços constantes, não ultrapassou, em 2014, 64% do nível de 2008 e 70% do nível de 2010. É claro que uma coisa é a quantidade e outra a qualidade. Mas, tipicamente, a segunda vem com a primeira e não se vislumbra qualquer mudança de paradigma que tenha ocorrido, fazendo com que com menos investimento se pudesse ter feito um «milagre das rosas».

 

Último ponto, olhando para a frente. A aposta no conhecimento e na inovação, para modernizar e internacionalizar a economia, quer pela via das exportações, quer através da substituição de importações, é decisiva para o país. Está no centro da agenda dos países mais avançados e é forte e sistematicamente recomendada pela OCDE e pela Comissão Europeia (mas não a mesma Comissão que, secundada a nível nacional por quem acha que uma boa estratégia económica é começar por empobrecer o país, preconiza a baixa dos salários para ganhar competitividade). A inovação é, assim, a via mais sustentável para a aceleração do crescimento e para a criação de mais e melhor emprego. Daqui resultam, obviamente, duas boas notícias: a consolidação das finanças públicas deixa de ser apenas uma miragem e a tão discutida sustentabilidade da Segurança Social fica muito mais bem assegurada.

Professor Universitário

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico





















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