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David Sanz 05 de Julho de 2020 às 18:00

As lições do caso Wirecard

A situação da Wirecard é particularmente relevante porque, sendo uma fintech de referência no contexto europeu e mundial, uma crise como esta pode afetar a confiança dos investidores e limitar o desenvolvimento de empresas semelhantes, sólidas, equilibradas e, acima de tudo, éticas, que nada têm a ver com este caso.

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Dias após rebentar o escândalo relacionado com a fintech alemã Wirecard, já é possível retirar deste caso algumas elações que evitem que o sucedido se volte a repetir. Para isso vale a pena recordar que a antiga administração da empresa é suspeita de ter cometido crimes de fraude, depois de a atual equipa de gestão ter admitido que, provavelmente, os 1.900 milhões de euros atribuídos a reservas financeiras, afinal, não existem. Uma quantia que corresponderia a 1/4 de todo o balanço da companhia e cuja inexistência fez baixar em flecha a sua capitalização bolsista, que chegou a ser de 20.000 milhões de euros, e retirou à empresa a confiança das instituições financeiras, que, por sua vez, cortaram linhas de crédito. Um cenário que corresponde a uma tempestade perfeita e que põe em causa a atuação de todas as entidades envolvidas no caso…

Quem acompanha o setor financeiro e a atividade bancária em geral reconhece que as fintech têm sido capazes de reinventar a indústria, permitindo-lhe acompanhar a evolução tecnológica e aproximando-a do ritmo de mudança das necessidades dos cidadãos. Esta é a perspetiva positiva. A negativa reside no facto de muitas destas fintech, pela novidade que representam, estarem para lá dos mecanismos de report e controlo estabelecidos pelas autoridades locais e internacionais, que regem a atividade financeira tradicional. Uma situação que o tempo, em regra, acaba por corrigir, com a introdução de novas leis, códigos e regulamentos, mas que podem explicar o facto de esta empresa não ter tido resultados auditados em 2018 e 2019 e continuar ainda assim cotada em bolsa, figurando nos portefólios dos principais fundos de investimento internacionais, expondo assim muitos investidores a um grande risco.

A situação da Wirecard é particularmente relevante porque, sendo uma fintech de referência no contexto europeu e mundial, uma crise como esta pode afetar a confiança dos investidores e limitar o desenvolvimento de empresas semelhantes, sólidas, equilibradas e, acima de tudo, éticas, que nada têm a ver com este caso.

O rápido crescimento dos pagamentos digitais tem sido muitas vezes canalizado para as fintech, fora do sistema bancário tradicional e não totalmente dentro. Na Europa, uma nova empresa de pagamentos pode começar a operar com um capital inicial de 50.000 euros, quando, em média, um novo banco só o pode fazer com um mínimo de cinco milhões de euros. A regulação atual também não parece estar preparada para antecipar ou cobrir situações de insolvência como a que pode suceder com a Wirecard.

Assim, para que a indústria financeira saia deste episódio mais fortalecida, seria importante apertar a malha de controlo que os reguladores, supervisores e auditores impõem às empresas que acompanham. Por seu lado, as fintech têm também a obrigação de aproximar os seus procedimentos internos dos mecanismos impostos às instituições financeiras tradicionais, que, pela sua longevidade, já passaram por episódios semelhantes e se conseguiram ajustar, ou numa perspetiva de autorregulação ou de “compliance” com as regras estabelecidas pelas autoridades.

O colapso da Wirecard vai ser um teste para percebermos se esta queda pode gerar danos colaterais relevantes para os clientes ou arrastar outras instituições. Sem dúvida tem de motivar o estabelecimento de novas normas.

Este escândalo vai obrigar os reguladores alemães a cobrir estas contingências, para além de já as ter posto em questão, sendo de antever que isto resultará na criação de novas regulamentações europeias.

Apesar de a Wirecard estar integrada na unidade bancária alemã regulamentada, o órgão fiscalizador financeiro alemão BaFin não supervisiona diretamente a empresa que a controla e há outras subsidiárias que possuem um esquema de controlo internacional muito complexo, como foi demonstrado.

Uma solução possível para este caso pode passar por regulamentar as empresas de pagamento digitais como bancos, sendo que algumas entidades e países já estão a avançar nessa direção.

A outra parte desta crise tem a ver com os investidores e os clientes. Os gestores de grandes fundos apostaram na Wirecard, desconhecendo ou ignorando os avisos de fraude ou de ausência de auditorias, que foram feitos nos últimos anos… Agora, é seguro que vão surgir muitas reclamações, denúncias e processos legais que serão usados como exemplo dos perigos de manter estas empresas fora dos esquemas de supervisão existentes.

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