Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
Luís Pais Antunes lpa@plmj.pt 02 de Dezembro de 2010 às 12:07

As obsessões que nos governam

Aprovado - sem pompa e quase sem circunstância - o Orçamento do Estado para 2011

  • Assine já 1€/1 mês
  • 2
  • ...
Aprovado - sem pompa e quase sem circunstância - o Orçamento do Estado para 2011, o mínimo que se pode dizer é que nada de verdadeiramente importante mudou.

Os mercados continuaram a ignorar as nossas proclamações e intenções, pressionando a escalada das taxas de juro. A Comissão Europeia, entre saudações efusivas pelo resultado alcançado e solenes afirmações de que o nosso país tem todas as condições para encontrar o bom caminho pelo seu próprio pé, acaba de arrasar as previsões em que assenta o mesmo Orçamento, ao apontar para um crescimento negativo da economia de 1% cento em 2011 e um défice orçamental de 4,9% do PIB, três décimas acima do compromisso assumido pelo Governo português.

Multiplicam-se os analistas que não hesitam em afirmar que é apenas uma questão de tempo até que Portugal, tal como a Grécia primeiro e a Irlanda agora, tenha de recorrer ao Fundo de Estabilização Financeira da União Europeia (e do FMI). Nouriel Roubini, o "Dr. Doom" da economia, não parece ter dúvidas de que tal irá ocorrer, aconselhando que quanto mais depressa, melhor será, enquanto vai avisando que é aqui ao lado, em Espanha, que se joga o futuro do euro.

Felizmente, nem todos pensam assim. Como bem terá lembrado o primeiro-ministro português em declarações feitas hoje (terça-feira) em Tripoli, à margem da Cimeira União Europeia/África, estamos em presença de uma "obsessão dos jornalistas" que teimosamente não se cansam de reavivar um problema que certamente não existiria se eles estivessem calados. Desconfio, aliás, que terão sido alguns jornalistas disfarçados de assessores de imprensa que colocaram na boca da chanceler alemã e de outros responsáveis (?) políticos algumas das afirmações que mais têm entusiasmado os meios financeiros e contribuído para essa onda de optimismo que actualmente varre a Europa em geral e Portugal em particular…

Foi, muito provavelmente, esse mesmo optimismo que esteve por detrás do anúncio governamental de mais uma nova reforma laboral. Agora que foram "dados" os primeiros passos necessários para (num futuro não muito distante, espera-se…) controlar a despesa pública e que, nas palavras do secretário de Estado do Emprego, a queda (?) do desemprego mostra que "a distância face à Europa foi encurtada", já todos aguardávamos ansiosamente o momento de "aprofundar as reformas do mercado de trabalho". Não se conseguiu descortinar ainda que reformas são essas, nem ninguém percebe muito bem a que é que corresponde em concreto a ideia de "potenciar os mecanismos de flexibilidade e adaptabilidade que o Código do Trabalho já oferece" de que nos fala a ministra do Trabalho. Mas não tenho grandes dúvidas de que, nas próximas semanas, seremos surpreendidos com um catálogo de novas oportunidades e iniciativas que se destinam a convencer os mais reticentes…

Acho que já todos tomámos consciência de que andamos a correr "de balde na mão" na expectativa de que assim conseguiremos apagar o fogo. Infelizmente, não chega. Ignorámos - com o Governo à cabeça - a realidade durante demasiado tempo, preferindo acreditar nos desenhos virtuais que nos apresentavam e nos amanhãs que cantam. É claro que vamos precisar de mudar muita coisa.

Desde logo - e é por aí que devemos começar - temos de adaptar o nível das nossas despesas àquilo que produzimos. Isso significa cortar o que for supérfluo ou desperdício, mas também fazer mais ganhando menos. Exportar mais e importar menos, diminuindo os custos do trabalho e aumentando a produtividade. Abdicar de alguns benefícios que sempre demos por adquiridos. Tudo isso terá de acontecer. Se não formos nós a decidi-lo, alguém se encarregará de o fazer por nós.

Mas é um erro andarmos a alterar de forma avulsa uma regra aqui, outra acolá, sem um desígnio estratégico e ideias claras sobre o caminho que queremos percorrer. Passar do estado de negação que caracterizou a nossa governação nos anos mais recentes ao desespero de tudo querer fazer "na hora" é apenas mudar as obsessões que nos governam. Mas não resolve nada.

Advogado
Assina esta coluna quinzenalmente à quinta-feira
Ver comentários
Mais artigos de Opinião
Ver mais
Mais lidas
Outras Notícias