João Costa Pinto
João Costa Pinto 11 de fevereiro de 2019 às 21:50

Bancos e economia - (I)

A avaliação da evolução dos nossos bancos e do nosso mercado bancário tem de ser feita à luz da situação em que se encontra o processo de integração financeira da Europa do euro - na dupla vertente monetária e bancária.
1. A evolução recente dos bancos portugueses parece indicar que os tempos difíceis - perigosos - passaram. Com excepção do banco herdeiro do BES que continua a esforçar-se por tirar partido da dupla garantia conseguida pelo comprador - bancos e Estado - os principais bancos fecharam 2018 com lucros que começam a lembrar os níveis pré-crise. Esta evolução leva a dois tipos de interrogações: a primeira decorre da análise das alterações que se têm vindo a verificar na estrutura das contas de exploração da generalidade dos bancos. Estas são sustentáveis, na medida em que reflectem um esforço de recentragem do modelo de negócios ou, pelo contrário, resultam sobretudo de condições conjunturais favoráveis, em particular da remuneração real negativa da poupança? A segunda coloca-nos numa perspectiva macroeconómica e refere-se ao impacto desse esforço sobre o modo como os bancos estão a operar. Em particular sobre as três funções principais exercidas pelos bancos e pelos mercados bancários: financiamento da actividade económica; intermediação entre o aforro - depositantes e investidores financeiros - e a procura de crédito/financiamento - consumo, produção e investimento; por último a transmissão dos impulsos da política monetária, entre o BCE(*) que os emite e os agentes económicos - consumidores, produtores, investidores e aforradores. Estas são aliás as funções que justificam a existência dos bancos e não a procura da maximização da remuneração do seu capital, independentemente do interesse em preservar a sua solvabilidade e a estabilidade dos mercados bancários. Das três funções referidas, a primeira assume, no nosso caso, uma importância crítica, devido à natureza de alguns dos bloqueamentos que estão a travar o potencial crescimento da nossa economia: baixa produtividade global; fragilidade da estrutura financeira de muitas das nossas empresas; nível excessivo da alavancagem - tanto público como privado.

 

No entanto, a avaliação da evolução dos nossos bancos e do nosso mercado bancário tem de ser feita à luz da situação em que se encontra o processo de integração financeira da Europa do euro - na dupla vertente monetária e bancária.

 

2. A generalidade das análises que se debruçam sobre a situação actual dos mercados financeiros e do financiamento na Zona Euro, apontam para a necessidade de completar a arquitectura da União Bancária. Para tal a Europa do euro terá de se entender em relação a dois elementos "chave" que continuam a faltar: um mecanismo europeu de garantia de depósitos e um sistema de regulação e de enquadramento da exposição dos bancos ao risco das dívidas soberanas.

 

No entanto permaneço convencido que, para além da importância inegável destas questões, subsiste na Europa um problema central que decorre, tanto do modelo de banca predominante - banca comercial - como do papel claramente subsidiário e marginal dos mercados de capitais. Situação com implicações complexas, tanto sobre o financiamento das economias do euro, como sobre a capacidade de absorção de choques sistémicos por parte dos mercados financeiros do europeu. (a continuar)

 

(*) Banco Central Europeu  

 

 Economista

 

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

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