Sofia dos Santos Nunes
Sofia dos Santos Nunes 13 de maio de 2018 às 19:20

Caso de Emerg(ê)ncia

Se um dólar mais forte significa um preço mais baixo nas importações e reservas mais valiosas, também significa, por exemplo, que lucros produzidos no estrangeiro são menos valiosos na moeda americana.

Após um ano de depreciação contínua do dólar americano sem razão lógica aparente, a moeda voltou à ribalta. Expetativas de subida de taxas de juro nos Estados Unidos pela Reserva Federal (FED), bem como de políticas protecionistas por parte do governo de Donald Trump tinham tudo para tornar a moeda americana ainda mais forte. Porém, tal não se verifica desde 2017 e várias teorias explicativas surgiram. Desde o facto de não ser o dólar a desvalorizar, mas outras moedas, como por exemplo o euro; ou o facto de o dólar ter estado até ao momento sobrevalorizado e, nesse sentido, uma correção de valor ser necessária. Independentemente da razão, a verdade é que o dólar voltou aos seus dias de glória e não parece ter hora para voltar a depreciar, sendo estimulado pelas políticas contracionistas que se esperam da FED e a baixa probabilidade de o mesmo ser realizado pelo BCE.

 

Mas se um dólar mais forte significa um preço mais baixo nas importações e reservas mais valiosas, também significa, por exemplo, que lucros produzidos no estrangeiro são menos valiosos na moeda americana. Porque não havendo "almoços grátis" quando alguém no mercado ganha, outros terão de perder.

 

Um dos potenciais perdedores deste evento são os países emergentes. O passado dia 4 de Maio, o banco central Argentino aumentou a taxa de juro de referência de financiamento para os 40%, tendo esta já sido aumentada duas vezes nas 48 h anteriores. Tal foi feito numa tentativa de travar a recente desvalorização do peso, uma das moedas emergentes a ser pressionada por taxas de juro americanas mais altas e um Dólar mais forte. Este processo de política monetária culminou no pedido de um empréstimo de 30 mil milhões de dólares pela Argentina ao Fundo Monetário Internacional com o objetivo de proteger o peso da recente desvalorização e de potências ataques cambiais especulativos.

 

Porém, a Argentina não é o único país à mercê de um dólar mais forte. Nos últimos dois anos, em vários países em desenvolvimento, aproveitando a oportunidade de financiamento barato, a taxas de juro antes somente providenciadas a emissores de dívida de nível "investment", foram emitidos cerca de 1.161,7 biliões de dólares de dívida em moedas como o dólar. Muitos países preferem esta opção a emitir divida na moeda local, uma vez que esta é por norma mais instável e menos atrativa para investidores. Assim, quando o valor do dólar aumenta, o fardo associado à dívida emitida segue o mesmo caminho e, consequentemente, os investimentos feitos nestes países tornam-se menos interessantes. De tal forma, este efeito acontece que só na primeira semana de Maio, no mesmo período em que a taxa de juro a 10 anos americana atingiu os 3%, fundos num total de cerca de mil milhões de dólares foram retirados do mercado dos países emergentes, um valor de retirada de capital superior ao experienciado durante o período de grande volatilidade no mercado no inicio do ano.

 

Se a estratégia de investimento em 2017 para o ano de 2018 era comprar dívida e ações de Turquia, Argentina ou México, hoje o cenário e as perspetivas futuras não são tão otimistas. O que não nos podemos esquecer é que não só flutuações cambiais, como também o crescimento económico e estabilidade política devem ser tidos em conta quando se avalia se se deve comprar ou vender.

 

Membro do Nova Investment Club

 

Artigo em conformidade com o novo acordo ortográfico

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