Mário Guedes
Mário Guedes 11 de setembro de 2019 às 19:56

China, EUA ou Portugal: os eletrões não têm cor nem nacionalidade

A globalização criou as bases para que, nos últimos trinta anos, o planeta tenha experienciado o período de maior expansão económica de que há registo na história da humanidade, ajudando milhões de pessoas a sair da pobreza e a engrossar a classe média (o motor da sociedade) nas mais diversas latitudes - em especial no país mais populoso do mundo, a China.

Porém, com esta subida socioeconómica generalizada, surgiram novas necessidades de consumo, nomeadamente ao nível das matérias-primas e fontes energéticas, e também desequilíbrios de diversas ordens, incluindo climáticos, com um impacto geopolítico crescente.

 

Responder às crescentes necessidades energéticas das suas indústrias e reduzir a emissão dos gases com efeito de estufa por ação humana, que afetam dramática e paulatinamente a qualidade de vida das suas populações. É nesta perspetiva, e no âmbito da abrangente e estratégica iniciativa Uma Faixa, Uma Rota, que devemos enquadrar o investimento do antigo Império do Meio na portuguesa EDP, em que a China Three Gorges (CTG) e a CNIC Corporation detêm mais de 28% do capital social da empresa - e, por sua vez, 82,6% da EDP Renováveis.

 

Neste último caso, isto significa, basicamente, que a EDP Renewables North America é efetivamente propriedade do Estado chinês em mais de 23%, estando sob o domínio deste a respetiva percentagem nos mais de 5,3 GW de potência instalada nos parques produtores de energia elétrica em laboração no território norte-americano. Ou seja, a propriedade da CTG na EDP permite a uma empresa, que é propriedade do Estado chinês, tornar-se, na prática, num dos maiores detentores da produção de energia renovável nos Estados Unidos da América.

 

Tendo em conta que o mundo começa já a sofrer os impactos negativos das alterações climáticas, o facto de esta transição energética em curso (para energias mais limpas e verdes) poder resultar de um esforço global, sem atenção a barreiras e fronteiras, parece uma boa notícia. Afinal, ao invés da aparente e muito inflamada retórica protecionista do poder político, marcada por recuos (aqui, infelizmente, menos aparentes!) nos investimentos em energia verde, essa linha de pensamento parece uma cortina de fumo espúria ou, quiçá, eleitoralista.

De facto, a resistência do Governo norte-americano à entrada de investimento com origem em latitudes e longitudes consideradas como pouco interessantes acaba por chocar de frente com a realidade dos números - designadamente, por não ser possível discriminar negativamente a origem, quer dos investimentos quer do tipo de energia verde ou qualquer outra. Felizmente, já que o fecho de fronteiras nunca foi solução para os males das economias. Serviu, antes de mais e em demasiadas situações, apenas para adiar problemas - causando, a médio prazo, danos maiores às economias e às sociedades, aprofundando as crises e a desigualdade social.

 

Para finalizar, numa perspetiva puramente nacional, a continuada aposta da "nossa" EDP - e dos demais players a operar no mercado - em energias renováveis em Portugal e no mundo, conforme tenho afirmado, é uma opção essencial e indutora da competitividade para a economia portuguesa no seu conjunto, que permite ainda ao país assumir a sua quota de responsabilidade no combate às alterações climáticas e na preservação dos ecossistemas.

 

Antigo diretor-geral da Energia e Geologia

 

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