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Pedro Bragança Ferreira - Economista 08 de Outubro de 2015 às 00:01

China "trava" o resto do mundo?

Ainda há não muito tempo se falava da pujança da economia chinesa, do seu potencial de crescimento, do seu crescente domínio nos mais diversos sectores de actividade e do espalhar de "tentáculos" de interesses comerciais e investimentos financeiros por todo o globo.

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Eis que agora, para muitos surpreendentemente, a economia chinesa começa a demonstrar as suas fragilidades, como qualquer economia, num mercado global em constante mutação e cada vez mais exigente. Ficamos mais uma vez com a clara noção de que não há verdades absolutas, nem economias invulneráveis.

 

Já em 2007/2008, estudos e artigos de uma das mais reputadas universidades norte-americanas (MIT) apontavam não só para uma tendência negativa nos valores do crescimento para a economia chinesa, mas também sugeriam uma, segundo esses, necessária alteração no seu modelo macroeconómico de funcionamento, sob pena do crescimento até então verificado (entre os 14,2% em 2007 e os 9,6% em 2008, neste último caso ainda muito próximo dos dois dígitos, assim como nos três anos subsequentes) continuar a diminuir, o que, de facto, veio a acontecer, colocando a questão da sustentabilidade do modelo económico chinês, novamente, em cima da mesa do seu governo. O modelo macroeconómico da economia chinesa tinha como premissa o forte crescimento anual do produto interno bruto.

 

Mais do que ter, ou não, previsto esta situação, o mais relevante agora para o resto do mundo é saber que consequências é que este abrandamento do crescimento económico na China terá sobre a economia mundial e, consequentemente nas economias europeia e portuguesa.

 

Notícia após notícia sobre a economia chinesa, as bolsas têm vindo a ressentir-se, as preocupações do impacto desta sobre o crescimento da economia mundial começam a aumentar, a combinação com o abrandamento económico de economias produtoras ou altamente dependentes do petróleo, gás e seus derivados, acentua essas mesmas preocupações e, consequentemente, gera incertezas quanto aos níveis de consumo futuros dessas economias e outras por eventual contágio.

 

A desvalorização da moeda chinesa (yuan), registada no passado mês de Agosto, está a pressionar os países vizinhos e concorrentes (Indonésia, Coreia do Sul, entre outros) a desvalorizar também as suas moedas, facto que, aliado à menor procura prevista para a economia chinesa, poderá criar pressões deflacionárias no preço final das denominadas "commodities" (petróleo, ferro, algodão, etc.) e, consequentemente, dos produtos finais, o que corrobora as preocupações do Banco Mundial sobre a revisão em baixa das previsões sobre os níveis de crescimento da economia mundial.

 

Para os países com elevadas dívidas públicas e níveis de crescimento ténues como Portugal, Espanha e Grécia, um cenário de deflação tornará ainda mais difícil qualquer recuperação económica, facto bastante pertinente para o próximo governo português e para a União Europeia como um todo.

 

O cenário não é animador, mas como em quase tudo na vida, há sempre duas faces da mesma moeda e, desta feita, outras formas de interpretar os factos e até de concluir que alguns dos supramencionados podem inclusivamente gerar oportunidades para  alguns países que possam e consigam aproveitá-las. Quer-se com isto dizer que há analistas que apesar de reconhecerem a inevitabilidade de algumas consequências dos últimos desenvolvimentos sobre a economia chinesa afirmam haver oportunidades no campo da substituição da China como fornecedor, assim como cliente, que podem compensar, ainda que parcialmente, o abrandamento dessa economia. Corroborando esta perspectiva existem já inúmeras empresas que preferem produzir noutros países, que não a China, pelas mais diversas razões.

 

Para bem do nosso país, e porque há, na verdade, muito mais países no mundo que poderão ter uma palavra a dizer em tudo isto, que o cenário seja diferente do que a generalidade dos analistas pensam actualmente.

 

Economista

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