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João Costa Pinto 07 de Julho de 2020 às 09:20

Como relançar a economia? – (V)

Trata-se sobretudo de induzir um movimento de modernização das nossas empresas, actuando sobre quatro áreas de importância central: estrutura financeira e dimensão das empresas, inovação tecnológica e formação/treino profissional, reconversão de trabalhadores e qualidade da gestão.

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1.Qualquer tentativa de relançar a actividade económica tem de partir do reconhecimento dos riscos – da gravidade potencial – da situação actual.

O comportamento recente da pandemia – com surtos que afectam a região da Grande Lisboa – está a ameaçar a retoma da economia por duas vias: por um lado, afecta de forma negativa as expectativas e o nível de confiança de muitos consumidores e investidores; por outro lado, pode – a prolongar-se – travar ou mesmo bloquear a recuperação do turismo. Mesmo admitindo que se trata de dificuldades temporárias, os efeitos imediatos serão complexos, muito negativos e transversais a vários sectores, dado o peso actual desta actividade que foi o principal motor de crescimento recente da nossa economia – contributo para o PIB, para o emprego e para as receitas externas correntes –, para além dos seus reflexos sobre actividades que gravitam em torno do turismo.

Acresce que esta evolução prolonga no tempo a pressão sobre as contas públicas, com um aumento das despesas – em particular com a Segurança Social e o SNS (*) – e uma contracção das receitas que dependem do nível da actividade económica. Para além de aprofundar os riscos de destruição de tecido produtivo e de capacidade de reabsorção do emprego que a pandemia pôs em risco.

Por último, há ainda que ter em conta que um eventual arrastamento da retoma não deixará de ter um forte impacto negativo sobre a actividade bancária e de enfraquecer o esforço de recapitalização e de regeneração que a generalidade dos bancos tem vindo a prosseguir desde a crise financeira. Estou aliás convencido de que a pandemia vai ter um efeito acelerador sobre as transformações que estão a recentrar o negócio bancário e a reconfigurar estruturalmente a intermediação financeira na Zona Euro. Questões para outro dia.

2. É à luz da difícil situação actual que ganha importância – e acuidade – um programa capaz de enquadrar as medidas a dirigir ao relançamento da actividade económica. Como referi no artigo anterior, este deve ser construído considerando dois eixos distintos de actuação: um primeiro, dirigido à preservação e ao aumento de eficiência do tecido produtivo existente; um segundo, desenvolvido com a preocupação central de reorientar o nosso modelo de crescimento e de desenvolvimento económico e social.

No primeiro eixo, trata-se sobretudo de induzir um movimento de modernização das nossas empresas, actuando sobre quatro áreas de importância central: estrutura financeira e dimensão das empresas, inovação tecnológica e formação/treino profissional, reconversão de trabalhadores e qualidade da gestão.

Num próximo artigo proponho-me abordar o interesse em fortalecer a débil estrutura financeira da generalidade das nossas empresas. Questão que não deve ser confundida com o baixo nível de capitalização e que considero crítica por contribuir fortemente para a reprodução de um tecido produtivo atomizado e pouco eficiente.

Os recursos a mobilizar para actuar sobre as quatro áreas referidas devem incluir diferentes tipos de instrumentos: capital (equity), subsídios, linhas de crédito e medidas fiscais. Recursos suportados pelos apoios provenientes dos programas europeus.

Quanto ao segundo eixo, deve ser construído sobretudo em torno das opções estratégicas dos programas de recuperação da Europa: economia digital/tecnologia, economia verde/ecologia e infraestruturas/comunicações, transportes, energia, etc.

Estou aqui a pressupor que a Europa do euro vai responder à crise actual através do lançamento de programas de investimento com impacto transversal a todo o espaço económico da União Europeia. Única via para mitigar os perigosos efeitos de fragmentação da resposta assimétrica que até ao momento caracterizou a reacção à pandemia.

As vantagens de construir este eixo de acção em torno das opções europeias são óbvias: em particular, induz uma maior integração e participação da nossa economia no movimento mais global de modernização e de integração da economia da área do euro, para além de tornar mais fácil a articulação com os “poderosos eurocratas” que vão avaliar os projectos a financiar. n

(*) SNS: Serviço Nacional de Saúde.

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

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