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Eduardo Ferreira de Lemos 16 de Janeiro de 2013 às 23:30

Como será 2013? Será que entendemos bem o 2012?

Este esforço vai seguramente melhorar a captação de fundos por parte dos nossos bancos, que por sua vez vão poder financiar as nossas empresas nos seus investimentos em montantes e condições mais favoráveis ao seu desenvolvimento.

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Nestes últimos dias do ano tenho lido e ouvido muito acerca de como o ano de 2013 será muito mais difícil para todos. São mensagens atrás de mensagens, cada uma com objetivos particulares e nem sempre alinhadas. A minha reflexão vai no sentido de dar um novo ângulo, dar uma perspectiva externa e global.


O atual contexto global indica que estamos numa transição entre ciclos económicos mais longos. E como tal, é esperado que estes momentos sejam caracterizados por incertezas. Assim relaciono os principais factos de 2012 que tive em consideração na minha reflexão.

1. Não houve recessão global, mas sim crescimento mais baixo.

Falou-se muito numa nova recessão nos EUA e no mundo. No entanto, isso não aconteceu. Observou-se mais do mesmo: nem recessão, nem aceleração, apenas crescimento baixo. O mundo completou meia década (2007 a 2012) perdida, desde o início da crise do "subprime", que levou à crise financeira internacional. Tudo indica que continuará perdida por mais alguns anos. A redução do endividamento excessivo esta a ser um processo lento e que ainda não tem fim à vista. Nos EUA, o sector privado já sacudiu a poeira e as dívidas (como indicam as melhorias dos índices bolsistas e mercado imobiliário), mas deixou tudo na mão do sector público, que ainda precisa de se ajustar.

2. A China ameaçou com uma queda abruta, mas o crescimento estabilizou-se em torno de 7,5-8,0%.

Enquanto a China desacelerava, a sensação de queda livre dominou as expectativas. Sem esse motor do crescimento mundial, temia-se sobre o futuro global, especialmente nas economias emergentes. Mas isso não ocorreu, no segundo semestre o crescimento estabilizou-se, e até ensejou uma aceleração no final do ano. Os sinais são os de um crescimento menor, mas ainda forte.

3. O risco de rutura na zona do euro diminuiu, no entanto, a volatilidade mantém-se.

Graças a Mario Draghi o risco de quebra na zona do euro diminui. A promessa de fazer "o que for necessário" para manter a zona do euro tem estado a dar resultado. A compra de títulos de dívida pública, em particular de dívida espanhola e italiana quando e se necessário, permitiu reduzir os juros cobrados e viabilizar o financiamento dos países periféricos, o que gerou uma clara melhoria no ambiente financeiro. Estamos, hoje, muito mais longe do fim do Euro.

E Portugal?

O processo de ajustamento da economia portuguesa tem ocorrido a um ritmo acelerado, ainda mais considerando que não temos mecanismos cambiais para desvalorizar a nossa moeda. O ajustamento da balança comercial de bens e serviços tem sido impressionante: vem de -9,5% (-16,4 mil milhões de euros) do PIB no final de 2008 para um superavit de +0,2% (+0,3 mil milhões de euros) no 3.º trimestre de 2012. Sabemos que este processo resulta de uma contração forte da procura interna, mas não deixa de ser surpreendente o nível de crescimento das exportações, que até setembro de 2012 apresentou um crescimento acumulado de 5,1% face ao mesmo período de 2011. Um forte desempenho dos sectores do Turismo e exportação de máquinas e combustíveis minerais.

No que diz respeito às despesas do Estado devemos ter em consideração que se verificou uma redução extrema. A despesa total caiu 12.669 mil milhões de euros (7% do PIB) desde 2010. Se excluirmos os juros, caiu 14.772 mil milhões de euros (9% do PIB). Se excluirmos aos juros as despesas de investimento, a despesa corrente sem juros caiu 8.076 mil milhões de euros (5% do PIB). O corte na despesa do Estado é impressionante e não é só nas despesas de investimento ou no pessoal, é em todas as rubricas onde há controlo (o controle sobre as prestações sociais é limitado porque dependem muito do ciclo económico e do envelhecimento da população).

O muito discutido défice, independentemente de serem atingidos os acordados 5%, já gerou uma melhoria significativa na perceção que os principais agentes de mercado têm em relação a Portugal. Mesmo considerando uma potencial derrapagem, persiste a confiança de que Portugal vai poder regressar aos mercados em 2013.

Esta confiança externa e dos investidores de que Portugal esta a fazer um trabalho notável é traduzida na expressiva redução das taxas de juro das obrigações do tesouro. Todas as maturidades regressaram para os níveis anteriores ao pedido de ajuda financeira. As atuais taxas de 6% a dez anos, representam uma redução de mais de metade do valor verificado há um ano, ficando abaixo dos 7% colocados por Teixeira dos Santos como limite para pedido de ajuda externa.

Com efeito, os resultados obtidos no programa de emissão de bilhetes do tesouro reforçam a ideia de um ponto de viragem no financiamento do Tesouro. Portugal tem sido capaz de emitir a prazos cada vez maiores, acompanhados de uma colocação de montantes tendencialmente crescentes. Em abril, foi possível realizar uma emissão com maturidade a 18 meses cujo pagamento não se encontra totalmente garantido pelo financiamento do Programa de Ajustamento.

Este esforço vai seguramente melhorar a captação de fundos por parte dos nossos bancos, que por sua vez vão poder financiar as nossas empresas nos seus investimentos em montantes e condições mais favoráveis ao seu desenvolvimento.

Adicionalmente, não podemos esquecer que Portugal aumentou os níveis de competitividade nos últimos anos, bem visível na evolução dos custos unitários de trabalho. Nos últimos ganhamos 10% face aos nossos parceiros europeus. Isto significa, que as nossas empresas, estão a ganhar competitividade no mercado internacional. Fundamental, para continuar a fortalecer a dinâmica de exportações.

Posto isto, devemos ter uma visão que os brutais sacrifícios que temos vindo a fazer, têm na verdade dado grandes e inesperados resultados. No entanto, 2013 será inevitavelmente, no seu conjunto, mais um ano de contração para a economia portuguesa. Em particular para as famílias que vão ver os seus rendimentos uma vez mais serem reduzidos, com a agravante que os rendimentos acumulados não vão conseguir cobrir essa perda de valor como se tem verificado em anos anteriores. Não podendo esquecer que 2013 vai ser o fim de um ciclo de subsídios de desemprego para um número significativo de pessoas.

Assim, o meu medo, ao contrário de outros, não é que 2013 seja um ano de contração. A contração é óbvia e será mais ou menos profunda, não pelo rigor do nosso orçamento, mas pela menor ou maior capacidade do crescimento externo em particular no resto da Europa. O meu medo é que a melhoria no ambiente financeiro internacional e o calendário político possa levar os agentes decisores (públicos e privados) a não completar o ciclo de ajustamento da economia e cairmos novamente no caminho do facilitismo. Foi este facilitismo que nos trouxe até à situação que vivemos hoje e que deitaria por terra todos os sacrifícios que todos temos vindo a realizar. O esforço que estamos a fazer não é para o próximo ano ou seguinte, é para que não tenhamos mais uma década perdida (2001 a 2012), é para termos as bases de nova vaga de crescimento.

Os problemas não acabaram, mas a recuperação estrutural de Portugal vai estar muito avançada no final de 2013 se terminarmos o ajustamento.

Director da Roland Berger Brasil, especialista em estratégia e finanças corporativas
Artigo escrito ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico

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